Há histórias que fazem a gente parar para pensar não pelo que aconteceu, mas justamente pelo que não aconteceu.
Há algum tempo, um leitor do blog, um senhor na casa dos setenta anos, compartilhou comigo uma experiência que ficou na minha cabeça. Ao longo da vida, ele teve alguns relacionamentos com mulheres, mas nenhum deles se tornou uma relação duradoura. Somente nos últimos anos ele começou a perceber com mais clareza uma admiração especial por homens femininos e crossdressers. Quando passou a olhar para a própria história com essa nova perspectiva, percebeu também uma coisa bastante dolorosa: durante praticamente toda a sua vida, ele quase nunca teve a oportunidade de conhecer pessoas assim e descobrir se poderia existir algum tipo de relacionamento entre eles.
Talvez o mais difícil nessa história seja justamente o "e se".
E se ele tivesse conhecido um crossdresser quando tinha 30 anos? E se tivesse encontrado alguém com quem pudesse conversar abertamente, sem precisar esconder aquela admiração? E se tivesse vivido um relacionamento que nunca chegou a existir simplesmente porque as pessoas que poderiam se encontrar estavam ocupadas demais tentando se encaixar no que a sociedade esperava delas?
Não temos como responder a essas perguntas.
Mas elas nos levam a uma questão muito maior: quantas experiências deixamos de viver porque aprendemos, antes mesmo de experimentá-las, que elas não seriam socialmente aceitáveis?
Existem vidas que terminam cheias de "e se"
Quando falamos sobre preconceito, normalmente pensamos nas pessoas que são diretamente atingidas por ele. Pensamos no homem que tem medo de sair em público usando roupas femininas, na pessoa trans que esconde sua identidade, no casal homosexual que evita demonstrar afeto em público ou naquele que precisa escolher cuidadosamente para quem contará determinada parte de sua vida.























