quarta-feira, 13 de abril de 2022

Eu sou uma esposa de crossdresser

Traduzido de Becky Schultz-Homko

“Gosto de usar roupas femininas e sinto necessidade de usá-las”, foi assim que me tornei esposa de crossdresser após 10 anos de casamento. Ele finalmente me disse que era um crossdresser, isso também foi uma revelação para ele.

Esta foi uma fonte constante de brigas e infelicidade no nosso casamento. Por várias vezes eu encontrei roupas femininas e pensava queele estava tendo um caso. Ele então me disse que gostava da sensação dos itens femininos e que isso o lembrava de mim quando eu não estava por perto. Então a gente seguia em frente ou ele decidia que iria “parar” de fazer aquilo. Até que um dia ele disse que precisava e gostava de usar a roupa para se manter são.

Quando me casei, assumi um compromisso para o melhor ou para o pior, para doença e para a pobreza, etc. Muitas pessoas podem não levar isso a sério, mas eu sempre levei. Manter a minha família unida era importante para mim. Eu vinha de uma família de pais divorciados e não queria o mesmo para mim e para os nossos filhos.

O problema começou a acontecer quando isso passou a ser o centro do nosso universo. Foi quando tivemos uma de nossas maiores brigas. Era Dia de Ação de Graças e eu tinha encontrado mais roupas. Não me lembro da situação exata, mas lembro de gritar e gritar. Lembro de me sentir magoada, traída e, pior ainda, desrespeitada.

No entanto, antes que alguém queira me bater. Eu sou uma pessoa de mente aberta e não tenho qualificação para questionar qualquer outra pessoa a fazer essas coisas, pois não tem relação direta comigo. Mas o caso do meu marido estava diretamente relacionado a mim e à minha vida íntima. Eu não me sinto atraída por mulheres, então o pensamento foi difícil de considerar.

Então este foi um grande anúncio para mim. Naquela época, pensei em me divorciar, mas decidi não fazê-lo. Eu disse a mim mesma que eu poderia lidar com isso, sei que é algo apenas de meio período, não de período integral. Eu pensei que eu não tinha que participar e que ninguém iria descobrir.

Ser crossdresser para um homem não é algo que a maioria das pessoas aceita. Na verdade, eles muitas vezes são atacados por ambos os lados da moeda. De um lado, a sociedade masculina diz que isso não é aceitável. Do outro, há alguns membros da comunidade LGBT que acreditam que os crossdressers não fazem parte do grupo porque a maioria ainda é heterosexual e eles não são suficientemente mulheres (não passam por transição).

Comecei a pesquisar sobre o tema e pedi para ele fazer o mesmo. Passei anos procurando ajuda. Me deparei com tantas coisas diferentes, mas nada que parecesse semelhante à minha situação. Descobri que normalmente ou a parceira cisgênero não estava interessada no novo gênero do marido ou elas simplesmente se divorciavam com pouco ou nenhum tipo de aconselhamento ou investimento nisso. Como mencionei, essa não era a solução que eu procurava. Eu sabia que tinha que ter outros por aí na mesma situação que eu, eu só tinha que encontrá-los.

Cerca de 8 anos depois daquela briga no feriado de Ação de Graças, encontrei um livro chamado “Living With A Crossdresser” (Vivendo Com Um Crossdresser, sem versão em português) de Savannah Hauk. Veja abaixo.

Depois de ler este livro, eu tive uma sensação de esperança. Eu estava quase no fim do meu juízo quando encontrei este livro. Ironicamente, meu marido também o encontrou e me sugeriu, embora ele ainda não o tivesse lido.

Peguei o livro e li, e isso me ajudou. A maior coisa que ele fez por mim foi me ajudar a sentir que eu não estava sozinha neste mundo, que haviam outros passando pela mesma situação. Eles poderiam não estar se manifestando em público, mas com certeza haviam outros.

Meu marido também leu o livro e isso permitiu que ele visse algumas das minhas perspectivas, e foi o início de longas conversas. Este foi o retorno das nossas conversas, em vez de apenas desentendimentos.

O que mais gostei foi que o livro forneceu a perspectiva para os dois lados da experiência. O autor é um homem crossdresser e tem uma parceira cisgênero que também não se sente “atraída” por mulheres. Esta foi a primeira vez que encontrei alguém que pudesse falar ambas as nossas línguas.

No livro, Savannah Hauk, refere-se à “Névoa Rosa” vivenciada por crossdressers. Que seria semelhante a uma jovem moça recebendo sua primeira experiência de tudo. Eles estão vivendo apenas essa ideia de um mundo de fantasia onde a realidade ainda não bateu. Muitas vezes perguntei se era um tipo de fuga e ele disse que sim, mas um pouco diferente. É vivenciar uma vida que eles assistem e querem participar, mas não podem.

Eu equiparo isso a como as mulheres devem ter se sentido antes do feminismo entrar em ação. Durante toda essa jornada, eu sabia que eu era uma hipócrita porque agora tenho a liberdade de me travestir de mulher. Mas no passado esse não era bem o caso.

Agora tenho certeza que neste momento você deve estar se fazendo muitas perguntas. Provavelmente mais do que eu posso responder neste post. Portanto, confira o blog Our Story Of Transition (Nossa história de transição, em inglês). Temos diversos tópicos sobre crossdressers e transgêneros. Se você é um Parceiro cisgênero que tem problemas para encontrar apoio, convido você a participar do meu grupo no Facebook onde não há julgamento, apenas suporte. Se você é um crossdresser à procura de apoio, confira o site da Savannah Hauk.

Becky e seu marido
3 Comentário(s)
Comentário(s)

3 comentários:

Anônimo disse...

Minha esposa após o choque inicial (nós dois quase tivemos colapsos nervosos) é um pouco tolerante, mas eu sei
que no fundo ela se aborrece quando me vê en femme. Então, diminuí a frequência a contragosto.

Anônimo disse...

Recomendo um romance recém lancado da escritora Natasha Lins, Laurette, sobre a sua relacao online com uma crossdresser fetichista. O livro é instrutivo e muito engracado. Saiu pela editora LGBTQAI+ Folhas de Relva.

Anônimo disse...

Não é facil ser esposa de crossdresser!