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quarta-feira, 20 de abril de 2022

A música me ajuda a aliviar a disforia de gênero

Foto de @annasecretpoet

Traduzido de Anna B.

Quando eu sinto disforia, a música me carrega para outro universo.

Quando eu tinha quatro anos de idade, fui até a minha mãe e disse a ela que tinha algo de errado. Eu não me sentia um menino. O ano era 1976. Como boa parte dos pais daquela época, eles não fizeram nada a respeito. Ignore-o e talvez ele vá embora. Depois disso eu não tenho nenhuma memória de me abrir dessa maneira com eles novamente. E eu estava sofrendo por dentro.

Alguns anos depois, na escola primária que eu frequentava, tínhamos aula de música. Eu absolutamente amei a aula de música e a minha professora, Sra. MacNamara. Ela percebeu que eu tinha uma habilidade natural para tocar todos os instrumentos musicais da sala de aula com facilidade.

Ela me fez ficar depois da aula um dia e tocar todos os instrumentos musicais que ela podia colocar em minhas mãos. Ela me mostrou como cantar escalas maiores e menores em uníssono com o piano, e eu aprendi rapidamente. Ela parecia muito animada!

Quando surgiram as reuniões de pais e professores, a Sra. MacNamara fez questão de dizer aos meus pais que eu tinha um talento natural para tocar instrumentos musicais. Meus pais sorriram e disseram “oh, isso é legal”. A Sra. MacNamara tentou explicar a eles que isso era algo que eles precisariam nutrir para evoluir. Mas mais uma vez, meus pais não fizeram nada a respeito.

A Sra. MacNamara deu à classe um dever de casa em que tínhamos que criar uma música original e gravá-la em um pequeno gravador de mão, usando quaisquer instrumentos que tivéssemos em casa ou que precisássemos emprestar da sala de aula.

quarta-feira, 6 de abril de 2022

Vergonha Transgênero

Traduzido de Emma Holliday

A vergonha transgênero é uma masmorra emocional profunda e com poucas saídas.

Vergonha: um sentimento doloroso que é uma mistura de arrependimento, auto ódio e desonra.

Envergonhado: sentir vergonha; sentir angustiado ou embaraçado por sentimentos de culpa, tolice ou desgraça.

Embora eu não soubesse que eu era uma pessoa transgênero até completar meus 61 anos de idade, durante toda a minha vida eu senti vergonha da percepção que eu tinha da minha própria identidade masculina, ou masculinidade. Desde o princípio me ensinaram que eu era um homem e por toda a minha vida foi esperado de mim fazer nada além de coisas masculinas.

A sociedade tem paredes rígidas. Algumas são boas e outras são ruins. Fazer parte dela traz algumas penalidades pesadas caso você não siga suas regras.

Você seria considerado um depravado caso desviasse da rígida regra binária de gênero. Então, por essa razão, eu mantive a minha confusão de gênero em segredo por décadas. A profundidade dessa realidade eu escondi até de mim mesmo.

Ser um “macho” tem muitas regras. Uma das mais difíceis é a tal da honra. Os homens são fortemente doutrinados a manter um certo senso de honra, e a vergonha faz parte do mecanismo de controle. Ela costuma ser usada de maneira bem eficaz pela sociedade.

quarta-feira, 23 de março de 2022

Roupas não fazem de você uma pessoa transgênero

Traduzido de Emma Holiday

Albrecht Dürer - Adão e Eva (Rijksmuseum RP-P-OB-1155)

Me inspirei no artigo da Anna, O que você quer dizer com "sentir-se como uma mulher?", sobre identidade de gênero e a escolha das roupas que fazemos.

A citação que mais me impressionou foi uma resposta que alguém comentou no artigo anterior dela sobre as mulheres não usarem maisvestidos hoje em dia, aparentemente a autora ficou bem zangado:

“As mulheres foram forçadas a usar vestidos durante grande parte da história registrada... Feminilidade não é sobre usar vestido.”

Eu concordo absolutamente que a moralidade patriarcal muitas vezes dita o que as mulheres podem ou não usar. E a religião tem muita relação com isso.

quarta-feira, 16 de março de 2022

O que você quer dizer com "sentir-se como uma mulher?"

Complementando o texto da semana passada, "Por que a maioria das mulheres não usa mais vestido?", a autora Anna escreveu uma continuação após ler um comentário interessante no post dela. A questão agora é "como é se sentir como uma mulher?". Eu já tentei escrever sobre "O que é ser mulher", mas sei bem que a temática é um tanto complexa. Tanto que eu mesmo não consigo me ver como uma mulher e, para mim, está tudo bem assim.


Traduzido de Anna

Por conta dos sistemas de controle social, às vezes sinto que fui roubada da vida que eu deveria viver.

Sendo um homem de 49 anos que sofre de disforia de gênero, sinto os efeitos dos sistemas de controle social mais do que qualquer típico homem cisgênero de 49 anos.

Ninguém quer acreditar que alguém está te manipulando diariamente. Todos nós queremos acreditar que chegamos onde estamos com muito trabalho e determinação. Mas, na maioria dos casos, o jogo é manipulado para que as pessoas “normais” obtenham sucesso.

Se você sofre de uma condição médica politizada, terá muitas portas fechadas na sua cara. Por meio de leis, vigilância médica, desinformação de conservadores, lavagem cerebral religiosa, menos oportunidades de emprego, estereótipos de gênero, feministas radicais, agressões a celebridades e algumas outras coisas que provavelmente estou esquecendo ou bloqueei da minha memória.

Eu realmente sinto que a disforia de gênero que experimentei desde os 4 anos de idade teria me colocado no caminho para me tornar uma mulher trans se não houvesse nenhum sistema de controle para redirecionar minha vida.

quarta-feira, 2 de março de 2022

O problema da fantasia trans na pornografia

Pelo que parece, a pornografia transgênero está bombando na internet e o Brasil é um dos maiores consumidores dessa fantasia. Se bem que isso sempre existiu, principalmente por que as pessoas que estão fora da cis-heteronormatividade costumam ser marginalizadas e obrigadas a dar um jeito para sobreviver, o que mostra bem esse artigo chamado Retrato íntimo e glamouroso de mulheres trans na Paris dos anos 60 que relata como era essa questão a 60 anos no passado.

O problema é que muita gente acaba tendo o primeiro contato com pessoas transgênero nesse submundo pornográfico e logo supõem que todas as pessoas do espectro trans são assim. Cansei de receber mensagens de sujeitos anônimos na internet querendo saber da minha vida sexual ou até querendo me contratar para satisfazer os desejos deles. Confesso que esse foi um dos motivos que me fez tomar distância do mundo online e me afastou da maioria das redes sociais. Isso é cansativo e eu já perdi a paciência para tentar filtrar.

A autora do texto a seguir passou pela mesma situação que eu e disserta para tentar quebrar esse paradigma que existe em torno das pessoas transgênero e não-binárias.

Traduzido de Suzanna Alastair

Recentemente, um homem me enviou esta mensagem em um aplicativo de namoro que eu uso:

"Ei, você é gostosa!!! Você se parece com essa garota do [filme pornô trans] que eu assisti. Eu quero fazer isso….. e isso…. e mais isto… com você"

Ele assistiu um pouco de pornografia trans e ficou todo excitado e incomodado. Ele ansiava pela mesma experiência e logo assumiu que eu também queria. Por quê? Bem, porque eu sou uma mulher trans, o que obviamente deve significar que eu quero transar com ele exatamente da mesma maneira que a aquela estrela pornô, certo?

Não.

As pessoas trans representam uma pequena porcentagem da população e a maioria das outras pessoas não teve a oportunidade de conhecer uma pessoa trans para perceber que somos como qualquer pessoa. Somos seres humanos normais com anseios de felicidade e também desejamos evitar qualquer tipo de sofrimento. Nem todos gostamos das mesmas coisas só porque somos trans. Somos um grupo diversificado de pessoas, assim como a população em geral.

Nos últimos anos, as pessoas trans receberam uma certa exposição na mídia devido a celebridades como Elliot Page e Caitlyn Jenner. Como resultado, as pessoas ficaram curiosas a respeito de pessoas trans, quem somos e, claro, como é fazer sexo com uma pessoa trans.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Aceitando o Paradoxo da Energia Masculina e Feminina

O texto a seguir é muito válido para as pessoas que não se sentem exatamente como transgênero, principalmente para quem se vê como não-binário ou apenas como crossdresser mesmo. Eu mesmo me encaixo nisso sempre me pego pensando bastante sobre o assunto pois não me sinto como uma mulher e não faço questão de ser visto como uma, inclusive não me sinto confortável quando outras pessoas forçam questões transgênero em mim.

Só um detalhe: como a autora é filósofa, o texto não trás respostas, mas os questionamentos dela com certeza nos faz refletir um pouco, e isso é ótimo!

Traduzido de Transphilosophr

Minha identidade não binária me levou ao caminho tortuoso do gênero

Eu me pego pensando muito sobre o equilíbrio das energias dentro de mim, principalmente aquelas que são constituídas pelo que poderia ser chamado de masculino e feminino.

Sendo uma pessoa não binária, o que significa encontrar equilíbrio dentro do binarismo de gênero?
Esse equilíbrio é realmente necessário?
Isso precisa ser equilibrado para ser visto de maneira bonita e fashion?
Não seria suficiente apenas existir ao longo do espectro, dentro do espaço multidimensional do gênero?
Posso colocar meu polegar na escala e ainda ser uma pessoa não binária?

Em um nível superficial, tem a questão da minha aparência. Ela é vagamente feminina, com cabelo comprido e expressão de gênero casualmente feminina. Mas também há uma aspereza em minha aparência, evidenciada na minha voz e nos traços faciais, bem como a lateral raspada do meu cabelo, que é um movimento deliberado para inspirar androginia, para enviar uma energia queer. Isso leva o observador a um estado de ambivalência que se inclina para o feminino. Esse estado costuma ser uma fonte de ansiedade para mim, embora, estranhamente, também seja o mais confortável. Essa é a vida não-binária.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

E se você não for realmente transgênero?

Bom dia a todos e feliz ano novo! Esse ano eu pretendo continuar trazendo mais textos toda quarta-feira para fazer vocês refletirem um pouco, além de dicas, fotos, HQs e qualquer assunto interessante relacionado à nossa vivência fora da norma. A começar por esse texto de um terapeuta americano trans e queer que trata da auto dúvida que temos a respeito da nossa própria identidade. Ele foca em vivências trans, mas o contexto vale igualmente para qualquer pessoa que foge da linha cis-hétero.

Traduzido de Terapeuta Trans

Como lidar com essa questão assustadora.

Eu me entendi como sendo uma pessoa transgênero quando estava com 26 anos. Comecei a fazer a terapia hormonal alguns meses depois e mudei legalmente meu nome alguns meses depois disso. Embora eu tivesse muitas pessoas que me apoiavam, ainda foi uma das coisas mais difíceis que eu fiz na minha vida. Eu não trocaria isso por nada e estou feliz por ter abraçado quem eu realmente sou.

Nos primeiros anos, fui atormentado por preocupações sobre a validade da minha identidade trans. E se eu não for realmente trans? Eu pensava comigo mesmo. E se eu estiver errado e acabar cometendo um erro terrível? E se eu tiver que desfazer a transição e me sentir insuportavelmente envergonhado?

A maioria das minhas preocupações se baseavam na minha ansiedade, o que significa que estavam focadas no futuro. Essas eram coisas que ainda não haviam acontecido e podem nem acontecer. Para mim, não aconteceu. Embora a destransição faça parte da jornada de algumas pessoas, a maioria das pessoas trans não passam por essa experiência. Infelizmente, as poucas pessoas que desfazem a transição acabam sendo usadas como evidência de que pessoas trans em geral não são reais, o que não só ataca pessoas trans, mas objetifica aqueles que vêm a perceber que não são trans (ou que prefeririam viver a vida como se forem cis, mesmo que não sejam).

Ainda tenho essas preocupações de vez em quando, embora não sejam tão comuns. Até o momento já se passaram cerca de cinco anos e essas preocupações diminuíram à medida que relaxei em minha identidade.

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

A dualidade paradoxal da cantada de rua na visão de uma mulher trans

Sei que as vezes a intenção pode até ser das melhores, mas ser abordado por um desconhecido no meio da rua sem ter dado nenhum tipo de abertura pode ser uma experiência bem desagradável. Ainda mais no nosso país onde não temos garantia de segurança em espaços públicos. Fora que alguns homens esperam por algum tipo de resposta à abordagem deles e nem sempre sabem lidar de boa quando são ignorados.

Lembro uma vez que fui passear numa feirinha de rua durante o dia e um grupo de três homens me abordaram do nada. Para mim foi uma sensação bem ruim, eu só queria passear e ver os artesanatos. Por outro lado, conheço outras crossdressers e travestis que percebem esse tipo de cantada apenas como um tipo de elogio, principalmente por elas receberem um tratamento similar ao de uma mulher cis. Talvez isso seja parte da cabeça de homem que temos, talvez seja uma oportunidade de se sentir admirada. Enfim, o texto a seguir é da Rachel Anne Williams, uma mulher trans, e ela argumenta sobre o lado positivo e negativo desse sentimento.

Traduzido de Transphilosopher

Isso não acontece com frequência, mas ontem à noite recebi uma cantada. Eu estava voltando para o meu carro em um posto de gasolina e havia um grupo de caras do lado de fora. Já no limite, um deles grita para mim "Ei, querida, como vai?". Muitos sentimentos passaram pela minha cabeça quando eu respondi "Estou bem" e tentei entrar no meu carro o mais rápido possível.

Um dos sentimentos que eu senti foi o medo. Eu estava com medo de que minha resposta "Estou bem" revelasse que sou transgênero por causa da minha voz e que aquele homem, tendo me cantado, sentisse que masculinidade dele foi ameaçada e então ele acabasse me espancando até o fim, por isso entrei no meu carro o mais rápido possível.

Outro sentimento foi de nojo. Fiquei enojada com a forma grosseira como os homens podem ser com as mulheres e senti uma pontada de injustiça em solidariedade com outras pessoas identificadas como mulheres que são cantadas ao acaso.

Mas aqui está o sentimento paradoxal: além do medo e da repulsa, também senti uma impulsionada na minha autoestima, porque ser cantada é uma indicação de que os hormônios e minha apresentação estão funcionando de tal forma que as pessoas me percebem como mulher. Esse é o meu objetivo, e é bom obter evidências positivas de que estou me aproximando desse objetivo.

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Mulheres trans e a ideologia da passabilidade

Passabilidade é quando uma pessoa tem que esconder que é trans para ser respeitada pelos outros, simples assim. Pra falar a verdade, achar que a identidade de gênero obrigatoriamente depende da aparência é uma violência ao direito que cada um tem sobre seu próprio corpo.

Traduzido de Takoda Leighton-Patterson

Quando me assumi como transgênero, a primeira coisa que fiz foi procurar grupos de apoio. Não é a coisa lógica a se fazer? Eu pensei assim até me encontrar em um grupo, me sentindo mais disfórica do que antes de me juntar a eles. Lutei com a sensação de que o objetivo dos grupos era que nos sentíssemos validados, seguros e vistos uns pelos outros. Minha expectativa do grupo estava longe da realidade e com isso fui obrigada a abordar o que eu estava sentindo e vendo no grupo. Em vez de ver mulheres solidárias e felizes, vi membros se olhando com desprezo, algumas dando-se mais valor do que outras com base em uma ideologia que imediatamente reconheci como perigosa. Essa ideologia é chamada de “passabilidade”.

Para entender por que a passabilidade é perigosa, você deve primeiro entender a própria palavra e o seu significado. Quando se trata de gênero, ser passável é uma forma de se integrar. Passar é ser percebido como alguém cisgênero ao invés de transgênero. Se passar por mulher trans significa simplesmente parecer uma “mulher de verdade”. Por que eu acho que isso é perigoso? Porque nos leva a perseguir um objetivo impossível. Qual é a aparência de uma mulher de verdade? Quem decidiu como é uma mulher de verdade? Se focar nisso, você encontrará a óbvia misoginia encarando você. Durante séculos, as mulheres foram submetidas às opiniões dos homens cis e julgadas por seus padrões. Somente mulheres com um determinado tipo de corpo, cor de pele, comprimento de cabelo, etc. eram e, de muitas formas, ainda são consideradas como "mulher ideal". Os padrões de beleza sempre tiveram falhas e, como resultado, muitas mulheres começaram a se odiar por isso. As mulheres trans não estão livres deste destino, na verdade muitas de nós sofrem da mesma forma porque nos ensinam e nos dizem que devemos sermos passáveis para sermos “reais”.

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

O problema com o rótulo de "transgênero"

Traduzido de Douglas Giles, PhD

Vou abordar um assunto delicado e ouso perguntar: qual é o problema com o rótulo de "transgênero"? Não há absolutamente nenhum problema com qualquer ser humano que possa se considerar "transgênero" pois todos os seres humanos devem ser aceitos pelo que são. O problema é o próprio rótulo, basicamente porque se trata de um rótulo.

Primeiro, sejamos claros sobre qual é o problema.

Uma pesquisa do Reino Unido descobriu que 79% das pessoas que se identificam como transgênero vivenciaram crimes de ódio relacionados à sua identidade de gênero e 32% sofreram violência física. Ambas as porcentagens são mais altas do que as experiências de gays, lésbicas e bissexuais. A Human Rights Watch relata que a violência mortal contra pessoas da comunidade trans está aumentando.

Pessoas estão sendo discriminadas, assediadas, ridicularizadas, agredidas e até mortas porque não se enquadram bem nos estereótipos culturais de "homem" ou "mulher". Eu coloquei “homem” e “mulher” entre aspas porque os gêneros são construções sociais. Em outras palavras, as categorias de “homem” e “mulher” significam o que decidimos coletivamente que significam, e esses significados mudam conforme as culturas mudam. Não se trata de genitália, mas do que as pessoas pensam e sentem sobre o conceito de “homem” e “mulher” e sobre os valores que atribuem a esses significados. Valores e significados são anexados a conceitos e esses conceitos são representados por uma palavra ou rótulo.

Nesse caso, se uma pessoa não está agindo como um “homem” ou como uma “mulher” “deveria” agir, é amplamente considerado que essa pessoa está fazendo algo impróprio. Indivíduos que agem de forma contrária às essas normas sociais podem ser tratados com suspeita e hostilidade. Os estereótipos são maneiras simples e fáceis de categorizar as pessoas, e se alguém pensa que todos são “homem” ou “mulher”, então julgar as pessoas é fácil. As pessoas confiam em conceitos e em seus rótulos para saber como devem pensar, sentir e fazer julgamentos sobre as coisas. Conceitos e rótulos dão uma sensação de segurança e compreensão, razão pela qual muitas pessoas se sentem desconfortáveis ​​quando outras não se conformam com as normas sociais do que um “homem” ou uma “mulher” deve ser.

A questão é: como podemos parar a discriminação e a hostilidade contra pessoas que não se conformam com estereótipos sociais como "homem" e "mulher?" Se o problema é julgar as pessoas de acordo com as categorias, adicionar outra categoria não é a resposta. Se “transgênero” é apenas mais um rótulo ao qual atribuímos valores e significados para definir as pessoas, o que exatamente se ganha? Mais rótulos não resolvem os problemas criados por rótulos. Como um rótulo que designa uma categoria, “transgênero” torna-se outro estereótipo contra o qual as pessoas individualmente são julgadas.

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Os 5 tipos de homem que encontrei paquerando online como mulher transgênero

No artigo de hoje a Suzanna Alastair, uma mulher transgênero, elencou os principais perfis de homens que ela pôde conhecer enquanto paquerava online ao longo de 2 anos. Apesar de não ser do meu interesse, tive a oportunidade de conhecer diversos desses perfis de homens na internet e achei bem coerente as observações dela. Aliás, eu já escrevi o post T-Lovers, será amor ou ódio? comentando um pouco dessa minha experiência pessoal conhecendo homens online.

Traduzido de Suzanna Alastair

Estou casada há 17 anos com uma mulher maravilhosa, durante os quais fomos estritamente monogâmicos por 14 anos. No início de 2019, minha esposa e eu estávamos casualmente discutindo sobre poliamor quando minha esposa me surpreendeu dizendo que ela achava que ficaria bem comigo, às vezes, namorando outras pessoas. Nisso, ela quis dizer que ficaria bem comigo namorando homens. Seu raciocínio era que um homem poderia me dar algo que ela não poderia.

Deixando de lado a falsa noção de que uma mulher deve ter um homem para ser feliz, ela tinha razão. Um homem poderia me dar algo além do que apenas um pau duro.

Para mim, como uma mulher transgênero, ter um homem heterossexual me vendo e me aceitando como uma mulher completa e me namorando como se fosse qualquer outra mulher cis seria o meu Santo Graal. O problema é que os homens heterossexuais muitas vezes me veem como: um homem, um fetiche, uma experiência a ser vivida, uma maneira de realizar seus desejos homossexuais de forma segura ou qualquer combinação disso.

Ter um homem que me aceite e me ame como a mulher que eu sou, sem quaisquer reservas ou obstáculos, e que me ame como faria com qualquer outra mulher, é algo que minha esposa não pode me dar.

Aqui está o dilema. Encontrar tal homem não é tão simples quanto ter esperança ou fantasia. Eu não sou uma mulher típica. Além disso, sou transgênero, mas não sou submissa. Eu sou uma mulher forte. Nas práticas fetichistas sou uma dominadora, isso significa que quem está no controle sou eu. Os homens normalmente não gostam quando uma mulher tira o controle deles. Bom, homens submissos sim. Mas, eu não quero um homem submisso. Eu quero um homem que sabe que é um homem, mas que também seja um cavalheiro.

Portanto eu passei dois anos paquerando online usando sites como Badoo, okcupid e um site finlandês chamado Alastonsuomi, e a maioria dos homens que me abordaram se enquadram nesses cinco perfis:


1. Opa! Eu cometi um erro!
Esse tipo de homem raramente lê o meu perfil que diz claramente logo na primeira frase que eu sou uma mulher transgênero. Eles me veem como uma mulher (que eu sou), mas presumem que sou uma mulher cis. Então eles começam a dança do acasalamento comigo fingindo serem todos doces e tal.

Um exemplo disso foi um homem que me escreveu no okcupid. Ele era um homem branco e careca do Texas, cujo perfil afirmava que ele era um cristão devoto e apoiador do Trump. Ele não é alguém que eu esperaria que tivesse interesse em uma mulher transgênero. Ele se aproximou de mim com educação e começou a fazer perguntas sobre coisas que eu já havia abordado no meu perfil. Sabendo que ele não tinha lido o que eu escrevi, perguntei se ele leu no meu perfil que eu sou uma mulher transgênero. Ele admitiu que não leu e pareceu meio confuso por ter se sentido atraído por uma mulher trans. A vergonha e o constrangimento fluíram de seu pedido de desculpas. Eu quase podia imaginá-lo com o rosto vermelho enquanto escrevia o pedido de desculpas.

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Quando eu percebi que era transgênero (ou não-binário)

Seria ótimo se nós tivéssemos um tipo de clareza súbita na nossa mente nos trazendo a compreensão do próprio ser, mas a realidade passa longe disso. Na verdade se trata de um processo intimo de autoconhecimento que cada um vivencia de um modo diferente e que acaba tendo relação direta com a maneira como as pessoas à sua volta tratam as questões de gênero ao longo da sua vida.

No meu caso, desde criança eu sentia um desgosto cada vez que ouvia que a minha imagem exterior tinha que refletir o poder do meu aparelho reprodutor. "Um homem tem que ter cara de homem, ué". Ou então quando as minhas ações ou desejos não poderiam ser realizados por se tratar de algo considerado feminino. "Como assim você quer aprender balé? Você vai é jogar futebol, se quiser aprender uma dança então aprenda dança de salão que isso vai te ajudar a pegar mulheres". Ah sim, também quando tudo se resumia a fazer algo ou não simplesmente para poder "pegar mulher".

Essas pequenas questões ao longo da vida nos faz questionar se realmente queremos ser isso que estão nos empurrando para ser com base no nosso aparelho genital. Pra piorar, a sociedade ainda martela na nossa cabeça que cada impulso e cada prazer da nossa existência é errado e vai contra a natureza. Essa experiência pode acabar fazendo você odiar viver na sua própria pele, pois sempre vai haver uma fricção dolorosa entre quem você é e quem você finge ser.

O texto a seguir, do Jay M, apresenta com detalhes alguns desses momentos que ele vivenciou e que o fez questionar sobre quem ele realmente é.

Traduzido de Jay M

Muitas vezes me perguntam: "Quando você percebeu que era transgênero?" ou alguma variação dessa pergunta. Enquanto algumas pessoas trans talvez possam se lembrar do momento exato em que isso aconteceu com elas, o mesmo não aconteceu comigo. Eu tive uma série de momentos do tipo "ah-ha" ao longo da minha vida que eu chamo de minhas memórias perdidas de menino. Essas memórias são breves momentos que me fizeram perceber que eu era diferente, mas de uma forma que eu ainda não conseguia colocar em palavras. Olhando para trás agora, fica claro que esses foram os momentos em que o garotinho perdido aqui dentro estava tentando encontrar o caminho de fora. A seguir, compartilho três dessas memórias que compõem os diversos capítulos da minha jornada para me tornar um homem trans e viver como meu eu mais autêntico.


Memória perdida de menino #1
Eu tinha cinco anos de idade e caminhava com meu pai ao longo da costa da Califórnia quando parei, olhei para ele e exclamei: "Eu quero ser um menino." Meu pai respondeu sem hesitação: “Ok. Por que você quer ser um menino?” Expliquei: “Quero jogar basquete com os outros meninos e me casar com uma esposa quando eu crescer”. Mais uma vez, sem hesitar, meu pai respondeu com calma e naturalidade: “Você pode jogar basquete, ter uma esposa E ser uma menina”. E com isso continuamos caminhando. Naquele momento, essa resposta conseguiu resolver meu conflito interno. Este foi um dos vários momentos ao longo dos últimos 25 anos em que meu menino perdido tentou encontrar o caminho para fora do meu corpo feminino.

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Dicas de como dar apoio ao seu filho transgênero ou não-binário

Quando eu era criança a questão do gênero era bem simples, a grosso modo se você tivesse um pênis você teria que aprender a se tornar um homem forte e provedor e se tivesse uma vagina você teria que aprender a ser uma mulher delicada e obediente. Assim todo mundo estaria pronto na vida adulta para começar uma nova família bonitinha, digna daquelas séries de TV com o homem ralando para pagar as contas enquanto a mulher cuidava da casa e dos filhos e dela mesma (bela, recatada e do lar que fala, né?). Tudo bem que não importava a sua vontade ou, mesmo, a sua personalidade, você simplesmente teria que se encaixar nessa ideologia de gênero.

No entanto, os anos se passaram. O salário do homem provedor médio sozinho já não suportava sustentar uma família direito e as mulheres tiveram que sair do lar para complementar a renda. Com isso, as mulheres foram notando que não precisavam ser obedientes para atender às vontades dos homens, até por que muitas delas foram obrigadas a "fazer a parte homem" por necessidade e sobreviveram. Já os homens parecem que estão acordando agora e notando que essa cultura também faz mal para eles (ah, e que eles também podem ser mais femininos).

Sendo assim, hoje eu sinto que as pessoas estão percebendo que não adianta forçar as crianças a se encaixarem nessas caixinhas binárias pois somos seres extremamente complexos e vivemos em sociedades mais heterogêneas do que antigamente. Então apresento aqui algumas dicas simples de convívio escritas pela Zada Kent, mãe de um garoto trans adolescente, para pais de filhos que não se encaixam perfeitamente na matriz binária e que poderão deixar a vida dessas crianças mais harmônica.

Traduzido de Zada Kent

Existem pelo menos três tipos de transição para indivíduos transgêneros – transição social, legal e médica. Cada uma delas irá influenciar diversos aspectos da vida de uma pessoa, mas todas as facetas detalhadas neste artigo exploram apenas a transição social.

(Se o seu filho já fez a transição social e está pronto para discutir a transição médica ou legal, acredito que o mais correto a se fazer é procurar profissionais que possam ajudá-lo a determinar o que é melhor para o seu filho. A jornada de cada indivíduo trans é única e pede a ajuda daqueles que são qualificados, esse é o melhor conselho que eu posso dar aos outros pais)

Independentemente da idade do seu filho, as dicas abaixo poderão fazer parte da transição social deles como um indivíduo transgênero ou não binário.

Roupas
Embora as roupas não tenham gênero, a maneira como nos vestimos pode representar como nos sentimos sobre nós mesmos e como desejamos nos expressar para os outros.

Quando meu filho se assumiu como transgênero, ele não queria mais usar as roupas femininas que predominavam o seu armário. Ele se apegou às roupas e aos sapatos masculinos, então tivemos que aprender a fazer compras no departamento masculino.

Seu filho transgênero ou não binário pode não querer usar muitas das roupas que ele vestia antes de perceber que não era cisgênero. (Cisgênero se refere à quando a identidade de gênero de uma pessoa corresponde ao seu sexo biológico).

Eles podem querer explorar o uso de itens fora do estilo de roupa que a sociedade atribui ao seu sexo biológico. Ou até mesmo eles podem se identificar como um garoto trans e ainda assim desejar usar vestidos.

É importante deixar seu filho escolher o que ele sente que melhor o representa e é mais confortável. Isso permitirá que eles saibam o quanto você os ama e os apoia, independentemente de como eles se identifiquem ou das roupas que estejam usando.

quarta-feira, 12 de maio de 2021

Revista O Terceiro Sexo, um pedaço perdido da história trans

Fiquei tão encantado pelo texto Meu primeiro passeio como mulher que publiquei na semana passada que resolvi buscar mais informações a respeito da revista alemã Das 3. Geschlecht publicada entre 1930 e 1932. Primeiro eu gostaria de citar o site The Weimar Project que está trabalhando para traduzir e publicar todas as edições em inglês e torná-las acessíveis para qualquer pessoa. Fora isso, achei outro texto que apresenta o contexto alemão da época e detalha bem a história do periódico. 

Traduzido de The Paris Review

Hans Hannah escreveu sobre o seu primeiro passeio para a edição inaugural de O Terceiro Sexo (Das 3. Geschlecht), provavelmente a primeira revista do mundo dedicada a questões trans. Publicado pela primeira vez em Berlim em 1930, O Terceiro Sexo circulou nos anos finais da República de Weimar, o experimento democrático do país alemão entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial. Depois que os nazistas tomaram o poder, eles destruíram a editora e a revista foi amplamente esquecida. Como resultado, a maioria dos relatos atuais cita os Estados Unidos dos anos 1950 como o berço dos periódicos trans. No entanto, a recente republicação em 2016 de O Terceiro Sexo pela Bibliothek rosa Winkel revive vozes perdidas do estranho passado alemão e recupera um notável pedaço da história trans.

A partir do século XIX, a Alemanha era intimamente associada à homossexualidade. Os ingleses falavam do german custom (costume alemão), os franceses se referiam ao termo vice allemande (vício alemão) e os italianos chamavam os homens e mulheres homossexuais de "berlinenses". Pessoas Queer existiam em toda a Europa, com certeza, mas os pensadores alemães naquela época estudaram ativamente as sexualidades não heteronormativas e debateram abertamente os direitos das pessoas queer, inaugurando o campo da sexologia. Na primeira década do século XX, mais de mil trabalhos a respeito de homossexualidade foram publicados em alemão. Pesquisadores da Inglaterra ao Japão citaram sexólogos alemães como especialistas e muitas vezes publicaram seus próprios trabalhos na Alemanha antes de publicar nos seus países de origem.

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Meu primeiro passeio como mulher

Traduzido de The Weimar Project

O dia foi inesquecível para mim, a primeira vez que caminhei na rua como uma mulher. Há muito tempo eu desejava isso, mas vivenciava apenas nos meus sonhos secretos. Eu tinha encontrado uma boa amiga a quem pude revelar o que havia adormecido dentro de mim como um segredo cuidadosamente guardado desde a infância. E, com uma amorosa compreensão, ela ficou feliz em me ajudar a realizar os meus desejos mais íntimos.

Não foi preciso muita preparação, já que eu estava acostumada a usar roupas femininas elegantes por baixo das roupas de homem, além de que, sempre que surgia uma oportunidade, eu trocava a máscara masculina forçada pelo meu rosto verdadeiro, de mulher, e eu estava acostumada a vestir roupas femininas e joias em casa. Fora que, minha figura com quadris acentuados, a cintura fina, a linha delicada das costas, os ombros estreitos e inclinados e o busto feminino, combinava mais com roupas femininas do que com um terno.

Eu precisava de algumas aulas particulares de uma mulher experiente para completar a imagem externa de uma dama em roupas de passeio. O chapéu lançava sombras suaves sobre o rosto velado, que tinha apenas um leve toque de pó, um pouco de delineador quase imperceptível e um traço de blush. O cabelo loiro discreto, que se misturava ao meu cabelo encaracolado na testa, fluía em ondas pesadas sobre as orelhas adornadas com pérolas finas e se mantinha amarrado em um coque cheio na nuca. A blusa de gola alta foi decorada com um fecho delicado. O vestido escuro de alfaiataria caía maravilhosamente bem, do qual a mão, meio envolta em renda, parecia estreita e pequena na luva branca. O guarda-chuva descansou em meu braço como um bom amigo. Um perfume discreto e o tilintar suave das pulseiras completavam o quadro, que era de elegância discreta. Senti tudo isso ao passar pelas crianças brincando na escada da elegante casa onde acabara de ocorrer a transformação.

Uma última hesitação tomou conta de mim quando cruzei a soleira da casa, mas a segurança da minha amiga a afastou. Naturalmente, caminhamos pelas ruas noturnas com suas luzes coloridas. Oh, como fiquei feliz! Quanto alívio eu senti! Como o ritmo do caminhar feminino voou pelos meus membros! Tudo era ternura, delicadeza e alegria. Foi uma bênção, pela primeira vez, livrar-me da máscara e apresentar meu verdadeiro eu diante de olhos humanos.

quarta-feira, 14 de abril de 2021

Eu e ele: duas almas, um corpo

O texto a seguir foi escrito pela crossdresser Cathy Hamilton e descreve um pouco da sensação que é viver com dois lados completamente distintos dentro de si. Eu já escrevi aqui sobre a visão dos povos nativo americanos que acreditam que pessoas assim tem duas almas e acho muito interessante o conceito, principalmente porque eles entendem que poder ver o mundo aos olhos de ambos os gêneros é um dom dado pelo Criador e que merece ser celebrado.

Confesso que não sinto exatamente o mesmo comigo, mas me diverti observando as semelhanças do texto com a minha própria vida. No momento eu acho que temos uma personalidade nata e algumas máscaras que aprendemos a vestir em determinadas situações. Talvez a psicologia chame isso de Id e Ego (Teoria da Personalidade de Freud), mas isso é uma discussão à parte.

Traduzido de En Femme Style

Muitos de nós, crossdressers ou transgêneros, acreditamos que temos duas almas dentro de nós, que temos dois habitantes distintos dentro de nossos cérebros lutando pelo controle de nossas mentes.

Esta não é uma maneira nova de se pensar. Algumas tribos nativo americanas, diversos povos polinésios e povos das ilhas do Oceano Pacífico reconheceram esse conceito em relação a certas pessoas há milhares de anos atrás.

Em graus variados, quase todos nós temos características masculinas e femininas. Talvez essas características sejam inerentes devido aos altos níveis de estrogênio que recebemos quando éramos apenas embriões ou talvez essas características tenham sido desenvolvidas continuamente ao longo do tempo – a questão é que todos sentimos a necessidade de expressar isso!

Essa ideia é algo que eu sempre cogitei, pois, quando a aura rosa baixa ou quando estamos bem produzidas e nos sentindo bem, quase todos nós assumimos um alter ego diferente. Nós nos tornamos alguém que não somos em nossa vida cotidiana; adotamos uma persona bem distinta daquela que apresentamos diariamente ao grande e vasto mundo.

No meu próprio caso essas diferenças são bem pronunciadas. Minha psique fica completamente diferente, tanto que passei a me referir como "eu" e "ele" – onde "eu" é a parte feminina geralmente oculta de minha personalidade e psique (ainda que dominante) e "ele" é o rosto do sexo masculino que eu tenho que mostrar diariamente para quase todos aqueles que me conhecem!

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Retrato íntimo e glamouroso de mulheres trans na Paris dos anos 60

Gosto muito quando eu encontro fotos e histórias do passado que deixam claro que o movimento transgênero não é "novidade da geração mimimi". Já trouxe aqui coleções antigas como as fotos da Casa Susanna e a exposição Uma história secreta de Cross-Dressers. Dessa vez encontrei o trabalho do fotógrafo Christer Strömholm que registrou o cotidiano das mulheres trans com quem ele conviveu em Paris durante década de 1960.

“Essas são imagens de pessoas cujas vidas compartilhei e que acho que compreendi. Estas são imagens de mulheres – nascidas biologicamente como homens – que chamamos de 'transexuais'. Quanto a mim, eu as chamo de 'minhas amigas da Place Blanche'. Era então – e ainda é – sobre como obter a liberdade de escolher a própria vida e própria identidade", escreveu Strömholm na época da publicação das fotos.

As fotografias em preto e branco, tiradas à noite com a luz disponível, mesclam fotografias de rua e retratos e são, por sua vez, glamourosas e corajosas. Elas capturam uma Paris perdida, desprezível mas elegante, subterrânea mas extravagante, em uma época em que o General de Gaulle estava no poder e pretendia criar uma França ultraconservadora que ecoasse seus estritos valores católicos romanos. Nessa época as travestis eram consideradas foras da lei, regularmente abusadas e presas pela polícia por serem “homens vestidos de mulher fora do período de carnaval”.

Nana. Paris, 1959
Adaptado de New York Times

As fotos tiradas por Christer Strömholm das mulheres com quem ele conviveu compõem um retrato íntimo e sensível de mulheres transgênero décadas antes do movimento ter qualquer visibilidade popular.

Em 1959, Christer Strömholm, então um fotógrafo sueco pouco conhecido, encontrou seu caminho para Paris e para um grupo de pessoas que iriam transformar sua vida, e ele a delas.

O senso de família de Strömholm foi desbotado de maneira sombria pelo suicídio do seu pai e pelo novo casamento de sua mãe com um rico corretor de navios. Quando foi para Paris, ele abdicou o seu status de burguês e se juntou a um grupo de mulheres transgênero desamparadas que viviam na região da Place Blanche de Paris, praça onde se encontra o famoso cabaré Moulin Rouge, e que rapidamente se tornariam seu clã adotivo. “Essa era a família dele, essas garotas”, disse seu filho Joakim Strömholm.

Suas amizades verdadeiras eram com “as pessoas mais indesejadas de Paris”, acrescenta Joakim. “Ele enxergou a beleza delas. Não foi nada voyeurístico, escandaloso, foi apenas uma vida normal que ele seguiu ”.

Cobra. Paris, 1960
Kismie. Paris, 1962
Sabrina. Paris, 1967

As fotos permaneceram guardadas até 1983, quando foram publicadas como um livro, “Les Amies de Place Blanche” (“As amigas da Place Blanche”). Começa com uma breve introdução escrita pelo fotógrafo: “Este é um livro sobre insegurança. Um retrato de quem vive uma vida diferente na grande cidade de Paris, de pessoas que suportaram a aspereza das ruas. ... Este é um livro sobre a busca da identidade própria, sobre o direito de viver, sobre o direito de possuir e controlar o próprio corpo.”

Strömholm morava nos mesmos hotéis que as mulheres que fotografou. Ele comeu com elas, bebeu com elas, saiu para a cidade com elas. Ele levava sua câmera Leica e alguns rolos de filme quando saíam à noite e, ao voltar para o hotel, os revelava em seu quarto. “Se as fotos estivessem mal expostas ou se eu tivesse cometido um erro técnico, não importava. Eu ainda teria outras noites pela frente ”, escreveu ele.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Dicas para as esposas de transgêneros

Esse texto a seguir foi escrito por uma mulher transgênero chamada Renee Reyes e é especialmente direcionado para as esposas de transgêneros. Em alguns pontos foge um pouco da realidade dos crossdressers, mas é uma leitura bem interessante!
Renee Reye

Traduzido de Renee Reyes

Guia de esposas para conviver com seu marido transgênero

Talvez o início do seu relacionamento foi como o de muitas outras parceiras de transexuais. Possivelmente você não estava ciente dessa outra mulher quando você andou pelo altar para dizer "sim". Quando você descobriu esse interesse, você decidiu manter o relacionamento por que o amava e acabou encontrando uma maneira de deixá-lo desfrutar de seu passatempo. Você começou a sentir algum prazer ocasional pelas atividades dele e apreciou a atenção extra e o apreço que ele dividia contigo pelo seu apoio. Ele ficava bonito quando se vestia, mas bonito como um filhote de cachorro, sabe? Nesse período foi relativamente fácil para agradar e mimar ele.
 
De repente, você acorda e descobre que ela está mudando e você não gosta do que vê. Você percebe um temperamento difícil e já não é tão fácil de controlar a situação. O que antes era um pequeno segredo entre apenas vocês dois agora foi compartilhado com outras pessoas como ele no ambiente on-line. Parece que a toda a intimidade está indo direto para o lixo. O que diabos está acontecendo??


Se você ainda não se preparou, é melhor estar preparada para conhecer uma mulher com pele esverdeada e chapéu pontudo que você costumava conhecer como seu companheiro. Nós a chamamos de Bruxa Malvada do Transgenerismo, mas no fundo no fundo você já conhece sua verdadeira identidade. Sua menina tornou-se um adolescente! Ah Merda!! *Risos*


Para e pense como uma adolescente!

Nesse momento você deve estar se sentindo um pouco castigada. Quantas de vocês por ai podem dizer que seu companheiro age como uma garota adolescente?

Sério, você se lembra como foram os seus anos de adolescência? Eu aposto que você não desejaria aqueles dias tumultuosos de insegurança e descoberta sexual para qualquer outra pessoa!! Antes de enlouquecer totalmente, considere os aspectos positivos.

Felizmente, o rapaz/moça conta com mais experiências de vida do que você quando passou por esse período. Isto deve levá-lo a passar por essa fase de ajuste rapidamente, principalmente se puder contar com o seu amor e apoio. 

No entanto, nem sempre é um processo bonito. Lembre-se, estamos lidando com a mente suja de um homem crescido associado a uma menina adolescente. Soa como um Frankenstein, não? No mínimo sua como a Noiva do Frankenstein.

Estranho como isso vai soar, mas você tem as chaves para fazê-lo funcionar porque você já esteve onde ele está agora! Naturalmente, você deve levar em consideração as questões que são exclusivas para a sua situação pessoal - mas eu vou dar-lhe algumas ideias que poderá te ajudar.

Sinais de crescimento

A maioria das mulheres percebe mais mudanças na sua garota conforme o tempo que ela se mantém montada. Vai parecer como se fosse, basicamente, o tempo todo. Com toda a franqueza, por favor considere que ele provavelmente passou muito tempo sendo incapaz de aceitar esse desejo dentro de si e muito menos pode apreciá-lo abertamente. É natural que ele queira explorar mais plenamente um desejo tão reprimido.

Muitas mulheres respondem a este aumento de intensidade tentando bloquear todo o processo. Mas será este é o melhor caminho?

Pense como uma adolescente. O que você teria feito se seus pais cortassem a sua diversão? Se você fosse como muitos adolescentes, você iria rosnar um pouco, ser ranzinza e, se persistir a proibição,  você iria atrás de uma maneira de burlar a supervisão. Cortar as pernas da sua garota pode ser uma forma conveniente para mantê-la no lugar por um momento - mas não se engane - ela geralmente pode e vai encontrar uma maneira de sair da prisão.

É como fazer uma pessoa segurar a vontade de fazer xixi. Por mais que você gostaria de pensar de outra maneira, ela não escolheu ter que fazer isso - é apenas a natureza tomando seu curso!

Eu vejo dois caminhos consistentemente bem sucedidos de ação neste domínio. Primeiro, equilibrar cuidadosamente as necessidades e desejos dele através de orientações, acordos e discussões. Ele/ela vai precisar sair, ajude-o a fazer isso com segurança e de acordo com algumas regras preestabelecidas. Incentive-a a fazer amizades de qualidade (se lembra de uns amigos que seus pais te empurraram?). É uma boa ideia. Amigos nos ajudam a melhorara as nossas qualidades. Meninas adolescentes precisam deste senso para ficar longe de problemas.

Finalmente, aumente a dose quando ele menos espera. A medida que as habilidades de transformação dele melhora, o tempo e o esforço necessário para atingir o resultado procurado torna-se cada vez maior. Não trave os desejos dele apenas deixando-o se vestir numa noite de sexta-feira por mês. Incentive ele de vez em quando!! Nada vai deixa ele tão familiarizado com os horrores da feminilidade quanto ter de se montar com frequência.

A Sociedade Americana do Câncer usa esse mesmo método para levar as pessoas a parar de fumar. Para reduzir a frequência necessária de se vestir, deixe-o ter uma overdose - assim como um fumante inala sete maços de Marlboro um dia antes de parar de fumar. A natureza pode ajudar a cuidar do resto.

Além disso, force-o a ganhar o seu próprio sustento. Fuja de ideias como fazê-lo limpar a casa em um uniforme de empregada doméstica pois ele provavelmente vai gostar dessa opção. Em vez disso, faça-o lavar e passar suas próprias coisas e mantê-las bem organizadas.

Eu realmente acho que é necessário haver uma Academia Não-sexual Para Transgêneros onde meninas novas podem ir e aprender tudo o que precisam saber - e mais importante - ter experiências fora de seu ambiente de conforto. Nessa altura, você precisa seguir o seu trajeto como todos os outros, criando o seu próprio!


Foto mais antiga da Renee Reye