segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Normas de gênero e porquê eu não quero ser passável

Já escrevi dois artigos relacionados a passabilidade ("Passabilidade" e "Transgêneros e a necessidade de modificações corporais") e acho que deixei claro que é um termo que não me agrada. Mas eu vivo como homem a maior parte do tempo e pessoalmente não faço questão de realizar uma transição ou algo do gênero. Talvez esse assunto nem seja do meu lugar de fala. Entretanto, ao ler esse texto de uma mulher trans falando sobre os limites da passabilidade para ela eu percebi que vai exatamente de encontro com o que eu penso. Então espero que a reflexão seja de bom proveito para você também.

Traduzido de Rachel Brindell

Para muitas pessoas transgênero ser passável é alcançar o maior objetivo. Há muitas razões para isto. Às vezes pode ser uma questão de segurança, ou para que a pessoa trans se sinta confortável na sua própria pele, ou por uma série de razões e todas elas são válidas.

Para aqueles que não sabem o que é ser passável, é a capacidade de ser visto como uma mulher cisgênero se você for uma mulher trans, ou um homem cisgênero se você for um homem trans.

No entanto, cheguei a um ponto em minha transição em que a aprovação dos outros não é necessária, nem desejada. Eu moro em um estado liberal dos EUA, Nova York, que tem suas próprias leis de proteção de gênero, e a violência contra pessoas trans parece ser mínima. Além disso, sinto que agora posso viver de forma autêntica e sem remorso como eu sempre fui.

Lembro de quando me assumi pela primeira vez há alguns anos e passei pelo processo tedioso e cheio de ansiedade de me assumir para meus entes queridos e amigos. Vários deles me perguntaram o quão longe eu pretendia ir com a minha transição e, francamente, naquele momento eu não sabia. Minha resposta foi “até me sentir confortável em minha própria pele”.

Agora, três anos depois, atingi esse nível de conforto. Ah, claro que ainda tenho lutas com meu velho amigo Disforia de Gênero, mas elas parecem mais brigas do que uma guerra total como foi por tantas décadas da minha vida. Eu fiz um transplante de cabelo, laser na minha barba, uma orquiectomia (remoção cirúrgica dos testículos) e aumento dos seios e todos eles ajudaram até certo ponto.

Mas eu percebo agora que não é apenas o físico, mas minha perspectiva emocional que me permitiu me sentir confortável em minha própria pele. Até que eu fosse capaz de parar de me esconder e de mentir para mim mesma (e para todos) sobre quem eu realmente sou, eu nunca chegaria a este ponto. A ansiedade, vergonha, culpa e dor de viver uma vida dúplice se foram. Estou aberto a todos e não preciso mais esconder a verdade de que sou transgênero, resultando em um estado emocional mais claro, finalmente deixando de lado a ansiedade, vergonha, culpa e dor com a ajuda da minha fantástica terapeuta.

Quando se trata de passabilidade, tenho certeza de que eu também poderia alcançar isso com um pouco de cirurgia de feminização facial e algumas aulas de terapia de voz. Algumas pessoas até me dizem que eu agora eu sou passável, embora eu não sinta isso. Mas o que eu estaria ensinando a outras pessoas trans se eu fosse passável? Ou a minha família e amigos, aliás? Eu estaria ensinando a eles que as normas de gênero estabelecidas estavam corretas. Eu estaria me escondendo atrás das mesmas normas de gênero que suprimiram meu verdadeiro eu por sessenta anos, mas eu estaria do outro lado do espectro. Isso não seria suficiente. Eu sou transgênero e nunca serei cisgênero, e estou bem com isso, na verdade, tenho orgulho disso.

Gênero não se trata apenas de duas extremidades, entendo que nós podemos estar em qualquer lugar desse espectro. Então, por que devo soar como uma mulher? Eu acredito que é porque nossa sociedade não aceitou que as mulheres, mesmo as mulheres cisgênero, possam ter voz grave. Veja a atriz Shohreh Aghdashloo, por exemplo (ou a Nicole Bahls por aqui).

Eu vejo muito claramente que, saindo e fazendo a transição de uma maneira visível, tenho demonstrado a tantas pessoas, incluindo familiares, amigos, colegas e conhecidos que somos apenas seres humanos também, e não somos a versão demonizada a que foram expostos a mídia e outros.

Eu pago impostos; Eu cozinho; Eu toco violão; Eu amo esportes; Eu compro mantimentos; Eu faço jardinagem; Eu amei e eu perdi; Tenho dias bons e dias ruins; Eu dou risada, eu choro, fico com raiva; Eu fico doente; Eu doo roupas para os necessitados; Eu fico em filas; Eu odeio a foto da minha carteira de motorista; Eu criei filhos; Eu odeio o corretor ortográfico no meu iPhone; Limpo meus banheiros e a lista continua, como todo mundo.

Por ser visivelmente transgênero e não me esconder atrás das normas de gênero ridículas que nos foram impostas por décadas, sinto que posso contribuir mais para a comunidade LGBTQ e também para a comunidade cis-normativa. Afinal, se todos passássemos, quem nos veria?

1 Comentário(s)
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Um comentário:

Elina Rosa disse...

Esse negócio de "lugar de fala" é bem contraditório e controverso. Feministas também lutam contra machismo e masculinidade tóxica, algo que sempre me afetou diretamente, e no entanto, eu não posso ter "lugar de fala" nesse assunto por ser homem?

Ao meu ver, isso vai diretamente de encontro ao direito humano básico da liberdade de pensamento e expressão e abre precedentes perigosos para esses direitos conquistados por todos, indiferente de raça, credo, sexo, etc.

Somente através do diálogo é que podemos construir uma sociedade melhor, e não da supressão de fala dos outros por serem de outro grupo social ou pensarem de maneira diferente.

A propósito, na verdade eu passei aqui pra te desejar um Feliz Natal e um próspero Ano Novo cheio de felicidades!

Abraços,
Elina Rosa