quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Andy Warhol e o Universo Trans

Andy Warhol com Holly Woodlawn e Paul Morrissey

Adaptado de JJ Hart

Anos atrás, a Universidade Estadual de Ohio estava sediando uma grande exposição da obra do artista Andy Warhol, figura de destaque do movimento Pop Art na década de 1960.

Como sabíamos o quanto a obra de Warhol era inclusiva para a comunidade trans e LGBTQ+, um pequeno grupo de amigas trans foi comigo de carro até Columbus (Ohio, EUA) para conferirmos a exposição pessoalmente.

A primeira coisa que notei nas minhas amigas foi que todas estavam usando salto alto, o que provavelmente as deixaria muito desconfortáveis se tivéssemos que caminhar por longas distâncias. Como eu conhecia um pouco o campus, imaginei que isso aconteceria, então escolhi sapatos baixos mais confortáveis para a caminhada. Fiquei feliz por ter sacrificado o estilo pelo conforto, porque acabamos tendo que estacionar um pouco longe do local da exposição.

É claro que não esperávamos nenhuma resistência por estarmos lá para ver a obra de Warhol, especialmente por causa de sua ligação com estrelas transgênero como Holly Woodlawn e Candy Darling, que inclusive foram mencionadas na famosa canção "A Walk on the Wildside" de Lou Reed, e que, entre outras coisas, falava "Shaved her legs and then he was a she" (tradução: raspou as pernas e então ele virou ela). Portanto, não tivemos receio algum de ir e nos misturar com o número surpreendentemente grande de famílias que estavam por lá. Curiosamente, aqui está uma menção que Warhol disse sobre Darling: "Candy não queria ser uma mulher perfeita – isso seria muito simples e, além disso, a entregaria. O que ela queria era ser uma mulher com todos os pequenos problemas que uma mulher tem de enfrentar – meia calça desfiada, rímel borrado, homens que a abandonaram. Ela até pedia absorventes emprestados, dizendo que estava com uma emergência terrível."

Na maior parte do tempo, o grupo de garotas com quem fui se comportou bem e se misturou tranquilamente à multidão ao nosso redor, exceto por alguém que sempre tenta estragar tudo para o resto de nós. Tive o azar de estar em uma escada rolante logo atrás de uma mulher trans que eu mal conhecia quando, de repente, ela se agarrou às duas laterais da escada rolante e abriu as pernas para o ar, bem abertas. Fiquei chocada que ela precisasse fazer uma coisa tão deselegante na frente de todas as crianças e famílias. Acho que ela queria exibir sua recente cirurgia de redesignação genital para o mundo, mas a deixei em paz. Disse que não queria participar do seu exibicionismo.

Fora isso, gostei muito da exposição, pois com o apoio das minhas amigas transgênero pude aprender mais sobre Warhol do que jamais teria conseguido sozinha.

Porém, logo chegou a hora de irmos embora, mas ainda era muito cedo para irmos para casa. Então, decidimos experimentar um famoso bar gay em Columbus, onde nunca tínhamos visitado. O lugar estava lotado, principalmente de homens gays, um grupo de lésbicas e um grupo de crossdressers bêbadas. Como eu estava dirigindo, quase não tomei cerveja e, por precaução, fui usar o banheiro feminino antes de partirmos para a longa viagem de volta para casa. Como sempre, tentei esperar a melhor oportunidade para usar o banheiro até chegar à porta e ver a placa: "uso exclusivo para mulheres de verdade". Mais tarde, descobri que isso aconteceu porque um desses crossdressers bêbados havia quebrado todas as regras sagradas do banheiro feminino na frente de uma lésbica. Pelo que eu ouvi, ele não se sentou paraurinar, fez xixi em cima do assento e saiu sem lavar as mãos. Não me surpreendeu que a placa estivesse na porta, isso arruinou o privilégio de todas nós usarmos o banheiro feminino.

Eu ainda era bastante ingênua naquela época. E nunca tinha convivido com nenhuma pessoa transfeminina que não soubesse se comportar adequadamente em público. Mas, como em qualquer outro grupo, sempre há algumas maçãs podres que estragam tudo para o resto. Eu detesto quem faz esse tipo de coisa porque isso torna mais difícil para nós, as demais, vivermos uma vida supostamente normal.

A viagem de volta para casa, de Columbus para Dayton, foi tranquila, pois conversamos sobre tudo o que vimos na exposição de arte de Andy Warhol. Sobre como Warhol ia muito além do que um artista moderno que usava referências populares de latas de sopa, ainda mais com o seu envolvimento e apoio a Candy Darling e outras mulheres trans, como Holly Woodlawn. Aliás, havia tantas exposições de seus escritos e atividades interativas de aprendizado que era quase demais para absorver em uma só visita.

Quanto à "exibicionista" que mencionei antes, nunca mais a vi, pois ela morava em uma área rural ao norte de onde eu morava e trabalhava em uma grande loja de departamentos. Espero que ela tenha amadurecido e deixado seus dias de exibição em público para trás. Fora isso, eu sabia que a ação desordeira daquela crossdresser irresponsável no banheiro não representa todas as outras crossdressers. Mas ainda assim há repercussões quando se ultrapassa a fronteira de gênero e se invade o espaço sagrado de outra pessoa. É preciso ter cuidado para não abusar da hospitalidade alheia.

Se você tiver a oportunidade de visitar uma exposição de Warhol, não deixe de ir. Talvez você, como eu, saia de lá com um respeito ainda maior pela obra dele. Ele certamente representa uma era da vida que provavelmente jamais se repetirá. Aliás, existe um enorme museu dedicado à obra do ícone pop em Pittsburgh (Pensilvânia, EUA), que vale a pena visitar, caso você esteja por perto.

JJ Hart, autora do texto


Confira a seguir um pouco mais sobre Candy Darling e Holly Woodlawn, consideradas como duas Superestrelas de Warhol.


Candy Darling

Candy Darling nasceu em 24 de novembro de 1944 com o nome de James (ou Jimmy) L. Slattery. Desde criança, era fascinada por Hollywood e pelas atrizes de cinema, que imitava na esperança de um dia se tornar uma delas. Quando contou à mãe que era gay, mostrou também seu visual como Candy, recebendo apoio e admiração por sua beleza. Em 1967, conheceu Andy Warhol em um show burlesco underground e acabou participando do filme Flesh (1968), além de atuar em Women in Revolt (1971), produzido por Warhol.

Considerada uma das primeiras mulheres trans a fazer terapiahormonal, ela teve papel importante na popularização das Drag Queens e influenciou gerações posteriores, com seu impacto ainda perceptível em programas como RuPaul's Drag Race. Candy Darling faleceu em 21 de março de 1974, após desenvolver câncer, possivelmente relacionado ao uso experimental de hormônios durante a sua transição.

Confira uma cena da Candy Darling no filme Women in Revolt (1971) e algumas fotos da estrela:


Holly Woodlawn

Holly Woodlawn nasceu em 26 de outubro de 1946 com o nome Haroldo Santiago Franceschi Rodriguez Danhakl. Aos 16 anos, saiu de casa e viajou de carona até a cidade de Nova York, enfrentando dificuldades para sobreviver nas ruas, experiência que mais tarde relatou em seu livro "A Low Life in High Heels" (Uma Marginal de Salto Alto, sem edição em português). Sua carreira artística começou quando foi escalada para a peça Glamour, Glory and Gold, de Jackie Curtis, cuja segunda produção contou com uma das primeiras atuações de Robert De Niro.

Embora sua posição como uma verdadeira Superestrela de Andy Warhol seja debatida, Holly chamou a atenção de Warhol e de Paul Morrissey, atuando nos filmes Trash (1970) e Women in Revolt (1971). Holly Woodlawn faleceu em 6 de dezembro de 2015.

Confira uma cena da Holly Woodlawn no filme Trash (1970) e algumas fotos da diva:

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