quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Contando para a companheira

A primeira pessoa que soube da Samantha foi a minha esposa. Não vou dizer que foi planejado contar para ela por que não foi. Na época nós estávamos namorando a quase dois anos quando um dia eu chego em casa e me deparo com a Sra. Oliver muito brava. Descubro então que ela encontrou uma blusinha minha jogada pela casa e supôs que eu estava traindo ela.

Lembro que eu sentei no sofá e travei. "E agora?!", eu pensava. Acho que não demorei muito para abrir o jogo. Eu já amava ela e preferi arriscar me expondo do que perder ela tão cedo. Abri o jogo. Falei que era meu e, para provar, mostrei o resto das peças. Um scarpin de nº 42 é uma boa prova, não acham?

Primeira foto juntas no nosso primeiro "ensaio" ❤
Choramos um pouco, me montei e apresentei esse meu outro lado. Conversamos e a vida seguiu. Não já viramos amigas e começamos a trocar segredos, ela até comentou sobre isso na Entrevista com Sra. Oliver:
"Não vou dizer que essa descoberta e a evolução disso não tenha abalado um pouco o relacionamento. Claro, fiquei insegura, fiquei com mil medos, me senti triste, me senti menos mulher.....(poxa, mexe com a nossa cabeça ver seu marido virando uma mulher linda que tem um corpo lindo e anda melhor de salto que eu hahahaha)
Mas, percebi que meu maior inimigo não era ele ser crossdresser, mas eu mesma e meus preconceitos e julgamentos. Quando percebi isso comecei a deixar fluir mais. Não digo que agora está tudo 100%  na minha cabeça, mas um dia chego lá!"

A gente demorou alguns anos para passar por essa fase. Não posso culpar ela por essa demora. Ela passou a vida inteira com a imagem que homem é isso ou aquilo e do nada seu namorado aparece dizendo que gosta de se travestir. Vale lembrar que estou falando de fatos que aconteceram em 2008, antes mesmo de estrear RuPaul's Drag Race (2009) na TV. Acho que foi a primeira vez que ela ouviu o termo crossdresser.

Mas o tempo passou. Tivemos diversas conversas. Discutimos o relacionamento. Mais conversas. Até que um dia eu senti que caiu a ficha para ela. Parece que ficou claro para ela que a Samantha faz parte de mim e que não afeta outros aspectos como minha opção sexual ou, no meu caso, vontade de partir para uma transição.

Hoje ela me apoia, me incentiva e me ajuda. O fato de poder ser como uma amiga dela parece que nos aproxima. Quando demos o nosso Passeio no Shopping ficamos umas 3 horas dentro da loja Forever 21 vendo roupas juntas. Quantas mulheres fazem isso com os maridos? Normalmente eles ficam bufando em algum canto enquanto a mulher passa horas fazendo as compras dela.

Também compartilhamos algumas peças do guarda roupas. E maquiagens. E esmaltes. Esse ultimo eu abuso dela pois além de usar os esmaltes dela eu ainda peço para ela fazer tanto as minhas unhas das mãos quanto as dos pés! (preciso treinar xD)

Agora que me abri para vocês e contei como foi a minha jornada com a minha companheira eu super recomendo que vocês façam o mesmo! De preferência se abrindo, não esperando que ela descubra. A seguir, vou listar os motivos pelo qual eu acho isso importante:
- Respeito pela companheira: é complicado você viver e confiar numa pessoa enquanto ela leva uma outra vida escondida e não é a toa que para muitas é um choque descobrir ou saber a verdade. As vezes o fato de você esconder algo tão importante é pior do que propriamente ser crossdresser;
- Troca de experiências: bom, elas costumam ter muito mais experiências femininas do que nós, por que não compartilhar?;
- Fuja das aparências: casar e levar uma vida só para a sociedade ver enquanto leva outra escondida é uma forma de auto-repressão que pode gerar desconforto emocional a ponto de atrapalhar toda a sua vida. Você precisa se perguntar se realmente vale a pena seguir adiante sozinho e escondido;
- Vamos quebrar paradigmas: nos escondemos por medo de nos expor e sofrer represálias. Ok, faz sentido. Mas o fato de ficar se escondendo faz soar como se fosse algo errado e só corrobora com a visão turva que a sociedade tem da gente. É errado o que fazemos? Estamos prejudicando alguém? Não, então por que mesmo se esconder? Pior, por que esconder isso dentro da sua própria casa?;
- Os tempos são outros: quantas Drag Queens você conhecia a 10 anos atrás? Comentei do programa RuPaul's Drag Race por que ele ajudou a difundiu essa linda cultura artística e hoje eu vejo milhares de Drags nos grupos do Facebook. Algo parecido acontecia ainda antes quando artistas top como Freddie Mercury, Cazuza e Renato Russo se assumiram homossexuais publicamente. Aparentemente naquela época ser homossexual era como ser trans hoje.

Não dou garantia que seu cônjuge irá aceitar de imediato ou mesmo que irá aceitar. Conheço mais de uma amiga que se abriu para a esposa e acabaram se separando. Mas nos casos que conheço isso ajudou essas meninas a soltarem mais o lado feminino e, consequentemente, ficar bem consigo mesmas!

Ainda não sei ao certo como sugerir a melhor maneira de se abrir, então peço para vocês compartilharem as suas histórias nos comentários. Quem sabe a gente não define um tutorial juntas?


7 Comentário(s)
Comentário(s)

7 comentários:

Karina Lima disse...

Muito legal a sua história! Parabéns...vocês tem muita sorte de formarem um casal em todos os aspectos.
A minha primeira vez foi sem querer também. A minha esposa tinha acabado o período de quarentena pós-parto e comprou uma peruca para apimentar a relação. Eu amei, mas fiquei quieta. Quando ela foi experimentar ela comentou: quer experimentar? Eu me fiz de rogada mas experimentei. Ela disse que tinha ficado ótimo. Daí pra frente evolui o meu crossdressing, mas em determinado ponto ela travou e falou que não queria mais e bla,bla,bla. Fiquei muito triste mas vivendo com respeito. Sempre que me produzia era escondido....Somos casados há 17 anos, mas em 2011 eu dei um tempo e fui morar sozinha...por um lado foi ótimo pois fiquei livre para me expressar, mas triste por não estarmos juntas. Quando voltamos, eu falei que não iria me esconder, até saímos juntas na rua, mas ela ficou desconfortável...travou de novo. Recentemente meus desejos voltaram com tudo, e estou aos poucos tentando trazer a Karina para casa. Segredos não existem entre nós, mas os limites estão estreitos. Com paciência e dedicação tudo se equilibrará. Enquanto isso vivo a minha vida feminina sozinha e na companhia das amigas virtuais do Facebook. Espero que logo eu possa viver mais intensamente o meu lado feminino e ser totalmente realizada! Beijos!

Feiticeira Scarlat disse...

Boa noite, eu me chamo Natasha, gostaria de parabeniza- lo pelo blog, acho importante as pessoas terem um canal para falar de suas preferencias sexuais. Mas não posso deixar de demonstrar minha frustração pela forma como vc coloca as coisas, pois pra mim soa como superficial, a narração de como sua esposa descobriu seu lado feminino, acho que seria importante mostrar as reais dificuldades que o relacionamento passa com essa descoberta.
Digo isso, por que estou passou passando por essa situação e não vejo essa facilidade, sou casada há oito anos e meio, e recentemente descobri que meu marido é crossdresser, e está sendo uma barra pra mim, as vezes penso que seria melhor dar um tempo, mas bem lá no fundo eu resisto pois gosto da pessoa dele e quero passar mais alguns anos ao seu lado.
Mas é difícil, vc procurar o homem que vc se casou e eventualmente achar uma mulher, na hora do sexo a cabeça pensar com quem vc está transando, que papel é o seu, e no dia seguinte vc levantar e finge que está tudo bem, quando não está. Não digo que não apoio ele a vivenciar esse momento, e eu pensando que seria só mais uma brincadeira de casal, eu comprei lingerie pra ele, fiz uma saia e um vestido, mas logo veio o choque, quando ele se mostrou de verdade, e ai eu perdi o chão, na cama ele já não sabia mais separar o feminino do masculino ou eu não percebia devido ao choque, e agora eu tenho que aprender o tocá-lo pq dependendo da forma ele vira ela e o meu tesão vai pro lixo. Antes da revelação lembro que uma vez eu disse que queria "pegá-lo" e de bate pronto eu ouvi um não e agora isso? E não venha me disser que estou pressa as convenções sociais que homem tem o seu papel pq não é isso, pois já fiz coisas que a sociedade não apóia, do tipo transar com outra mulher,pedir pra ele sair com uma prostituta, mas tem um turbilhão de informações que são difíceis de se entender e a pergunta que não quer calar: qual é o meu papel nessa história. Confesso que as vezes gosto dessa mudança é divertido, me excita, mas ainda está difícil de aceitar.
E é nesse ponto que na minha opinião vc simplifica, nesse momento é preciso jogar com a verdade e falar mais do que deu errado, pq depois dessa descoberta quantos relacionamentos acabam e não é por falta de compreensão, mas por não conseguir aceitar, por ter a sensação de fracasso impregnada no corpo, por se achar egoísta, pequena, perdida e as vezes sozinha.
Bom é tudo oq ue tinha pra falar.

Samantha Oliver disse...

Bom dia Natasha,

Primeiro lugar gostaria de informar que o blog não se trata de um canal para falar de preferencias sexuais, sei que cada um tem a sua e apoio a diversidade. Meu foco é tentar ajudar as meninas com informações e dicas sobre a temática relacionada ao crossdressing.

Quanto ao post em questão o meu objetivo é sugerir aos maridos que se abram para a esposa e exponham o que eles costumam esconder para si só. Normalmente esse lado crossdresser costuma estar dentro da gente desde criança, até fiz uma enquete sobre o assunto e cerca de 80% das meninas responderam que antes da adolescência já sabiam que esse lado feminino existia, então é bem provável que o homem com quem você se casou já tivesse esse lado feminino escondido dentro dele.

Não sei o quanto ou como esse lado feminino se externaliza no seu marido, conheço diversas meninas e sei que em cada uma é completamente diferente da outra. Umas gostam do crossdressing somente para o sexo, outras gostariam de vivenciar situações cotidianas como mulher e outras são trans que não tiveram coragem de assumir essa vida. Sendo assim, sugiro que você converse com o seu marido! Tente entender quando começou, o quanto ele precisa ser mulher e até mesmo onde ele pensa em chegar com isso.

Se quiser, posso pedir para a minha esposa conversar contigo. Meu e-mail é samanthactba@gmail.com =)

Sarah Helen Crossdresser disse...

Oi Samantha. Sou Sarah, o marido da Natasha e acho que deu para perceber que ela se sentiu muito insegura e decepcionada com esse meu lado. Fazendo um mea culpa, talvez isso tenha sido causado por eu ter sido muito avesso a qualquer coisa feminina durante anos, gerando um choque maior ainda. Em minha defesa, afirmo que não sou muito feminino mesmo e que mesmo quando me monto, ainda mantenho minhas "ogrices". Agora estamos progredindo e ela tem aceitado a Sarah com mais tranquilidade. Obrigado por conversar com ela e parabéns pelo seu trabalho e pela sua coragem em se expor. Eu acredito que a visibilidade é a melhor forma de combater o preconceito e você tem feito um grande trabalho.
Beijos!

Samantha Oliver disse...

Olá Sarah, fico feliz em saber que pude ajudar um pouquinho! E fico muito feliz em saber que vocês estão se entendendo melhor! Eu também sou meio ogro quando estou de homem, acontece, mas quando entra a Samantha a história é um pouco diferente =)
Agradeço pela mensagem, um dos principais objetivos aqui é justamente combater o preconceito ♥

Fernanda cross disse...

Falar a verdade é fator referência para uma boa relação por mais dura que seja, caso contrário estariamos vivendo uma mentira, é difícil saber a reação da nossa parceira mas tbm não é justo esconder dela uma coisa q faz parte da nossa vida, iremos sofrer mais e desgastar a relação, procure falar o quanto antes, se ela não aceitar, infelizmente pq não era pra ser, e se aceitar saiba aproveitar esse relacionamento da melhor maneira possível, fortalecendo laços de carinho e amor, sempre respeitando os limites um do outro e sempre com muita conversa para que ninguém seja forçado a fazer nada que não queira. Hoje sou muito feliz com minha esposa mas foi com essa coragem que chegamos juntas nesse momento maravilhoso que estamos vivendo hoje, antes de contar a ela estava quase entrando em depressão, resolvi arriscar e deu certo, hoje com o apoio dela estou no auge da minha felicidade e estando feliz posso dar a ela toda a felicidade que ela tambem merece em uma relação sem mentiras e sem segredos.

Lou Sato disse...

Olá Natasha, sou a esposa da Samantha. Entendo as dificuldades pelas quais esta passando, eu passei tbm, fiquei sim confusa qto ao meu papel na relação....
O que tenho pra te dizer é que passei por uns momentos meio difíceis até a completa aceitação desse lado feminino. O que me ajudou de verdade foi retirar a Samantha das "causas" da minha baixa auto estima e das confusões da minha cabeça, comecei a me questionar se de fato tenho q desempenhar algum "papel" e percebi que na verdade não existem papéis em um relacionamento, a não ser os impostos pela sociedade, pelas nossas crenças e por nós mesmos. Eu não preciso ser de determinada forma e nem o outro precisa, eu amo quem está comigo? O suficiente pra aceitar o outro integralmente, mesmo que não corresponda às minhas expectativas construídas? Quando vc retira essas expectativas, vc começa a ir mais fundo no que amar significa....
Eu só comecei a aceitar mesmo a Samantha qdo compreendi que o modo como ela se expressa, masculino ou feminino, não muda quem ela é por dentro, não muda tudo o que admiro na pessoa (qualidades e tbm defeitos), compreendi que o sexo é troca de amor e sentimentos que independem da forma física, da vestimenta ou qq outra coisa. Claro, teve muitos momentos que eu não consegui me abrir ao sexo pq não me sentia confortavel....mas pq o desconforto? Denovo fui buscar lá dentro de mim mesma os motivos....
Não joguei nenhum problema meu como sendo culpa do que o outro é, mas procurei buscar em mim a solução e questionar meu modo de sentir tudo o que senti ao longo do processo. Ainda não estou 100%, mas é uma desconstrução contínua de paradigmas.

Espero que ajude =)