quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Na dúvida da transição: o que é ser mulher?

Feliz ano novo, meninas! (sim, um pouco atrasado, mas estou por aqui)
Quero começar esse ano com um texto especial, espero que gostem ♥

Muitas pessoas me questionam à respeito de uma possível transição ou esperam que eu passe a viver exclusivamente como mulher. Sei que isso é a vontade de muitas dessas pessoas e entendo um pouco o sentimento, no entanto tem uma questão que me deixa com dúvidas: o que exatamente é ser mulher? Como faz para se tornar uma mulher? Ou, o que é ser mulher hoje em dia e na nossa sociedade?

Os seios não fazem de você uma mulher, nem um útero ou mesmo uma vagina. Pergunte a qualquer mulher em qualquer lugar o que faz dela uma mulher e provavelmente ela não se limitará apenas à anatomia, ao invés disso ela poderá indicar o seu coração, sua alma, o amor de mãe, a sua devoção, a sua a força, enfim, parece um sentimento único.

Ser mulher num contexto social já foi sinônimo de ser um objeto bonito e delicado, quase uma peça de decoração, que podia ser entregue pelo pai junto com um dote (pra compensar o transtorno) para um noivo e que serviria para gerar a prole desse homem além de ser vitrine do sucesso dele. Essa realidade não está muito distante da nossa, há algumas décadas atrás era o padrão da nossa sociedade e em alguns locais mais conservadores isso ainda é a realidade de mulheres em pleno século XXI.

Definir o que é ser mulher passa inevitavelmente pela ideia de construção histórica do feminino. Depende do tempo, do lugar, do contexto. Se em 1930 havia mulheres que iam para as ruas brigar pelo direito ao voto, outras não saíam de casa sem o marido acompanhando. Se em 1960 havia quem exigisse o direito de tomar anticoncepcional, havia também quem se casava virgem. Se nos anos 2000 há quem lute contra o machismo gritando, mostrando os seios e manchando o corpo de tinta vermelha, há quem prefira ser "bela, recatada e do lar".
Nos termos da biologia o sexo feminino ficou incumbido de um pequeno milagre que é dar origem a um indivíduo geneticamente novo. Claro que é necessário a ajuda do gameta masculino para isso, mas é o corpo da mulher que transforma uma célula em um bebê totalmente formado e ainda fornece alimentação para o primeiro estágio da vida desse serzinho.

Desse fato que surgem as diferenças físicas: o útero é um órgão que promove a proteção e a nutrição do feto, os ovários regulam a produção de hormônios e produzem o gameta feminino, os seios evoluíram a partir das glândulas de suor para garantir a produção do leite e o quadril largo permite o acúmulo de reservas de energia em forma de gordura para posterior utilização do feto.

Acrescento um detalhe inusitado: na maioria das espécies do planeta, de insetos até sapos e ostras, o padrão é que as fêmeas sejam maiores e mais fortes que os machos. Isso porque elas têm a difícil tarefa de carregar centenas ou milhares de pequenos ovos dentro de seus corpos de uma só vez. Apenas no caso dos humanos e de outros vertebrados placentários que se foge dessa regra. O desenvolvimento do feto na placenta, e não num ovo fora do corpo, limitou o crescimento das fêmeas para dar prioridade à produção de gordura, já os músculos vão para o macho junto com a função proteger a sua prole (isso deve ter contribuído para as relações monogâmicas, né?).

No fim tanto o formato de violão quanto a menor quantidade de músculos do corpo feminino é consequência desse conjunto de fatores de preparo para uma nova vida. Entretanto, uma coisa é ser mulher e outra coisa é ser mãe. Nem toda mulher cisgênero pode ou quer engravidar e isso não deixa nenhuma delas menos mulher do que as outras.

Está ficando complicado responder à minha pergunta, não acham?

Bom... então vamos além! Vivemos em um universo onde a dualidade impera, cito exemplos: Positivo x Negativo, Luz x Sombra, Vida x Morte, Yin x Yang, Frio x Calor, Lógico x Abstrato, Subjetivo x Objetivo, Caos x Ordem, Feminino x Masculino. Em todos os casos os lados são complexos e se complementam. Vale acrescentar que não podemos pensar em bem/mal ou certo/errado pois isso é uma questão de julgamento pessoal (criação da mente humana).
Sendo assim vou explorar um pouco a dualidade das energias feminina e masculina:
- A energia feminina é uma expressão de nossa propensão inata à compaixão, à graça e à beleza. Estar no feminino é estar alinhado com a natureza. É o que nos dá a ternura e sensibilidade. É o que nos leva à empatia. Ela cuida profundamente daqueles que nos rodeiam. O feminino é, em essência, a mãe segurando a criança ou a suave carícia do divino;
- Já a energia masculina é uma expressão do nosso impulso inato para a força, realização e triunfo. É o que nos implora para pisar no campo de batalha quando nossos amados estão em perigo. É o que nos dá a coragem de defender o que mais valorizamos. É o que nos dá vontade de agir corretamente quando estamos na indecisão do medo. O masculino é, em essência, o santo protetor, o justo guerreiro, o nobre guerreiro.

Como comentado anteriormente, essas energias são complementares, então não se pode esperar energia feminina apenas em mulheres ou energia masculina apenas em homens, deve existir um equilíbrio das forças em cada indivíduo. Porém, no contexto em que vivemos parece que se busca delimitar a atuação dessas forças em função do sexo de nascimento, então surgem conflitos cada vez que a energia oposta ao corpo físico se sobressai individualmente.

Isso fica evidente em casos como o da guerreira Joana d’Arc que após liderar diversas vitórias foi julgada herege por uma falsa corte católica e acabou queimada viva, ou da mãezona das drags RuPaul que já comentou ser "evitado por brancos por ser negro, por negros por ser gay, e por gays por ser afeminado".
Com isso eu acho que cheguei num ponto em que posso falar de transição. Será que uma transição física de gênero é a melhor solução para esse desequilíbrio individualmente? Para muitas eu acredito que sim pois, em diversos casos, é evidente que a energia oposta ao sexo se sobressai e o próprio ego sente a necessidade de externalizar a sua essência.

No meu caso eu diria que sinto um equilíbrio dessas energias, então uma transição de gênero seria injusta com o meu lado masculino. Talvez a minha essência se resume em ter liberdade.

Toda essa reflexão me fez pensar nas mulheres que conheci durante a minha vida. Respeito e admiro muitas delas pela força de vontade, pela capacidade de contornar os problemas, pela facilidade que elas tem de se relacionar e por conseguirem fazer tudo enquanto esbanjam uma beleza natural. E não falo apenas da beleza física, falo da beleza das atitudes e dos detalhes. Essas mulheres tem buscado o lugar delas na sociedade e, por conta da nossa cultura retrógrada, precisam se esforçar muito mais do que os homens para se destacar por algo que não seja a sua beleza.

Deste modo eu não sinto que andar de cabelo comprido e salto alto me tornará uma mulher. Também não sinto que ter um nome feminino na minha carteira de identidade me transforme em mulher. Sei que muitas das minha atitudes são compatíveis com as que são vistas como as de mulher e sempre escrevi aqui no blog que sou um homem feminino, mas hoje falo com orgulho que me sinto como uma mulher.

1 Comentário(s)
Comentário(s)

Um comentário:

Sarah Helen Crossdresser disse...

Acho que pra começar essa discussão, temos que entender que cada pessoa entende o conceito mulher de forma diferente. Para alguns, é simplesmente o sexo biológico e esses acreditam que a transição se resuma a "tirar o pênis".
Para outros, é um sentimento interno e então a transição é mais interna e de como você se identifica.
Eu penso que estamos progredindo para podermos usar elementos "femininos" e continuarmos sendo "homens". Como você se veste e se comporta não pode ser limitado pelo seu sexo biológico. Como você disse, devemos viver a liberdade de usarmos nossos corpos como quisermos sem que isso represente mudar nossa identidade.
Beijos e sou seu(sua) fã!