quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Crossdressing durante a Segunda Guerra Mundial

Recentemente uma amiga me me indicou a matéria Pesquisador alemão descobre centenas de imagens de 'nazistas crossdressers' do jornal O Globo e achei muito interessante, ainda mais pois no meu post Uma História Secreta de Cross-Dressers (exposição) aparecem várias situações similares então eu resolvi escavar um pouco mais e encontrei esse artigo de um site alemão com mais informações e muitas fotos.

Fonte: Wehrmacht em roupas femininas

Soldados alemães sempre foram vistos como viris, rígidos e duros como prego, no entanto centenas de fotos privadas dão uma visão completamente diferente e enigmática. O artista Martin Dammann apresenta: Crossdressing durante a Segunda Guerra Mundial

Na coleção aparecem soldados das forças armadas da Alemanha (Wehrmacht) dando abraço em camaradas usando roupas femininas, experimentando lingerie ou usando saia e sutiã na frente do emblema da suástica. Hitler começou sua campanha de conquista com esses mesmos soldados e exigiu virilidade em cada operação. Vale lembrar que se trata do exército de um regime que perseguiu impiedosamente, puniu e assassinou homossexuais.

"Provavelmente nenhum exército do mundo foi tão obcecado com a nocividade dos relacionamentos homossexuais masculinos quanto a Wehrmacht no Terceiro Reich", disse o historiador militar de Munique, Franz Seidler, em 1977. Quanto mais avançava a Segunda Guerra Mundial, mais energicamente os comandantes do Exército exigiam intervenção em casos que pareciam "especialmente adequados" para "minar a moral e a disciplina masculina das tropas". A homossexualidade na Wehrmacht foi punida com prisão ou mesmo com execução.

Como este implacável rigor moral pôde resultar nas imagens de guerra publicadas pelo artista berlinense Martin Dammann em seu livro "Soldier Studies - Crossdressing in the Wehrmacht"?

"Se as fotos não existissem, você não acreditaria", diz Dammann. Por quase duas décadas ele esteve envolvido com fotos amadoras de guerra. Imagens privadas o fascinam porque fotógrafos amadores, diferentemente dos profissionais, dificilmente percebem o efeito social e histórico das suas fotos, isso resulta em imagens surpreendentes.

Dammann viajou ao redor do mundo para coletar fotos privadas de guerra e notou diversas imagens de soldados com trajes femininos. Tal fenômeno atravessa conflitos e nacionalidades, eles são conhecidos desde a Primeira Guerra Mundial e também aparecem em álbuns de guerra americanos, ingleses e franceses - "mas são particularmente comuns em álbuns de fotos alemães da Segunda Guerra Mundial", revela o colecionador.

Ele aproveita e especula as razões: ao contrário dos países anglo-saxões, há uma tradição carnavalesca de travestismo na Alemanha, ou seja, homens se vestem de mulheres e vice-versa. "Acho que isso facilitou para os crossdressers do exército." Certamente o ato também desempenha um papel lúdico pois a guerra levou muitos soldados para longe de sua pátria por um longo tempo, de modo que "anseios e necessidades eram particularmente evidentes".

As imagens em preto e branco são incríveis. Às vezes os soldados aparentam estar trajando o que foi encontrado nos armários de aldeias invadidas pela Wehrmacht. Tem fotos de grupos uniformizados vestindo saia e sutiã. Além de que as séries de fotos mostram uma transição quase fluída das performances para o momento, com homens de biquíni e glitter no palco bebendo cerveja e espectadores uniformizados.

Dammann está convencido de que essas fotos descrevem como era a Wehrmacht por dentro e afirma: "Mesmo se a maioria dos soldados fosse heterossexual, as orientações homossexual e transgênero também se mostrariam com clareza incomum".
O período entre setembro de 1939 e maio de 1940 foi marcado pelo tédio dos soldados na frente ocidental.
Durante a chamada guerra sentada, pouco se mexia então era tempo para os bailes de máscaras.
"Páscoa 1940 b. 6. / AR 23 em Emmelbaum / Eifel"
O Regimento de Artilharia nº23 aparentemente organizou vários desfiles e casamentos.
Os habitantes haviam fugido das aldeias e os soldados se alojaram nas casas abandonadas,
onde encontraram as roupas para se montar
O "Decreto Senhorial", emitido no começo da guerra pelo Alto Comando do Exército, em princípio ainda considerava os homossexuais como "soldados de outra maneira bons e úteis" e seu uso no combate como um meio efetivo de educação. Soldados no esforço de guerra deveriam receber um teatro de apresentação, iniciado pelo Ministério da Propaganda e pela Organização da Força pela Alegria, para entretenimento e relaxamento.

No teatro, no entanto, as mulheres também apareciam "para que o travestismo nos cinemas oficiais não ocorresse", diz Dammann. Além do teatro oficial, havia outra forma de se apresentar: performances auto-organizadas por unidades de tropas, muitas vezes espontâneas, das quais artistas mais ou menos talentosos subiam ao palco como mulheres.

Os supervisores supostamente ridicularizavam o fato de que os atores femininos não tinham sucesso no campo militar, de acordo com Dammann. Quanto às penalidades, no entanto, ele não encontrou provas: "Não importava o nível das menores unidades militares nas imediações da frente, todos se conheciam, não eram demonstrações reais, então o elenco e o público se uniram".

A lógica militar pode pesar mais fortemente nesses lugares do que a ideologia partidária. "Eles queriam dar aos soldados um certo alívio e recuperação, mas principalmente para aproveitar seu poder de luta." Como motivos para tais performances, o artista vê "anseios reais pelas mulheres, talvez até pelos homens, mas também um forte elemento de escapismo, bem como elementos paródicos e caricaturais".

São piadas simples mascaradas entre camaradas, festas à fantasia inofensivas ou muito mais que isso? No geral, Dammann vê as fotos como prova de que o crossdressing tem sido um fenômeno generalizado dentro da Wehrmacht, mesmo com a ideologia homofóbica dos nazistas. É preciso distinguir entre a ideologia nazista, que era homofóbica, e a lógica de líderes militares, que precisavam do maior número possível de soldados na melhor forma física e mental.

Apesar de tudo, não se pode especular em casos individuais pois as informações sobre a maioria das fotos são extremamente estéreis ou inexistentes. No final, as imagens são apenas imagens: elas não dizem nada sobre o papel de cada pessoa, como o sociólogo Harald Welzer observa em seu texto anexo ao livro. Assim, cabe ao espectador interpretar: seria uma pequena rebelião contra as ideias nazistas de masculinidade militar ou apenas uma descontração carnavalesca?

Confira mais algumas fotos:
"É tão bom ser um soldado O 15º Pi (Pioneiros) em Przerośl", no verso da foto
"Natal 1943", no verso da foto
"Fotos de uma festa na praia em 16/08/1942 em Garulles", no verso da foto
"Abril 1943, estou experimentando lingerie feminina", no verso da foto
A imagem vem de uma longa sequência. Primeiro mostra os artistas durante uma performance: "Dedicado aos nossos camaradas que partiram em memória do tempo gasto no pântano, Bathorn, Stalag VI / C, Natal de 1941", alguém escreveu no álbum de fotos.
Stalag VI-C era um campo de prisioneiros de guerra em Emsland.
Para as celebrações muitas vezes havia apresentações mais ou menos preparadas, inclusive com crossdressers que se misturavam ao público, isso fazia parte da encenação.
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