quarta-feira, 24 de junho de 2026

Entre Dois Mundos: Minha Vida como Homem e Crossdresser

Vi Oliver

Meu dia começa cedo, como qualquer engenheiro. O som do despertador me lembra que há uma obra para fiscalizar, planilhas para conferir, reuniões para participar. No escritório, sou aquele homem metódico, direto e prático. O tipo de colega que entrega resultados e não desperdiça palavras. Tenho amigos homens, alguns ex-colegas de faculdade, outros colegas de profissão, e já passei por relacionamentos sérios, até fui casado.

Mas há outra vida. Uma vida que começa quando fecho a porta do meu apartamento, ligo o computador e entro em meu espaço virtual. Ali, não sou apenas eu: sou como uma mulher que gosta de se expressar com sensualidade, de explorar roupas, maquiagem, unhas pintadas, penteados. Uma mulher cujo corpo eu treino e cuido de maneira meticulosa: pernas e glúteos trabalhados na academia, corpo depilado, pele bem tratada, laser no rosto. Cada detalhe é pensado, cada gesto estudado. A sensualidade é calculada, mas também é libertadora.

E é aí que o contraste se instala, e esse contraste me assusta. Enquanto no mundo físico devo ser prático e contido, no mundo online posso explorar quem quero ser: cruzar as pernas de maneira elegante usando uma meia fina, ajustar a postura, mover os ombros com graça sutil. Cada foto, cada vídeo, cada interação digital é uma extensão de algo que nunca posso mostrar no canteiro.

No mundo físico, a percepção que as pessoas têm de mim é marcada por expectativas sociais rígidas: ser sério, confiável, às vezes até duro. Qualquer deslize na linguagem corporal, qualquer gesto considerado "feminino" seria imediatamente interpretado como estranho ou inapropriado. No online, posso quebrar essas barreiras sem medo. Posso ser exatamente quem quero, sem julgamentos, sem limitações.

O problema é que essa duplicidade não é sem custo. Acordo cedo, tomo meu café da manhã, vou para o escritório, olho para os gráficos e tento me concentrar. Mas parte da minha mente está em outro lugar: no post que publiquei ontem, na mensagem que recebi de alguém elogiando minhas fotos, nos comentários sobre minhas unhas vermelhas, no feedback de alguém sobre minha maquiagem.

A mente começa a se fragmentar: uma metade calculando custos de obras, relatórios e reuniões; a outra imaginando o brilho do batom, a textura do esmalte, o contorno do rosto.

Às vezes, sinto que estou vivendo em dois fusos horários psicológicos diferentes. Um lado meu precisa ser pragmático, objetivo, racional. O outro quer liberdade, leveza, expressão sensual. Existe uma tensão constante entre o que posso mostrar e o que devo ocultar. E isso afeta a cabeça: a cada dia me pego medindo palavras, ajustando postura, ponderando o quanto de mim mesmo posso revelar.

Minha carreira, felizmente, não foi afetada (ainda). Mas há momentos em que sinto medo: e se alguém descobrir? E se um colega de trabalho esbarrar em meu perfil online? E se meus clientes percebessem nuances de algo que considero íntimo? Esse medo me faz refletir sobre os limites do corpo e da imagem social, sobre como a sociedade reage quando um homem ousa se expressar fora dos padrões normativos.

No entanto, existem também momentos de libertação. Às vezes, após um dia exaustivo, entro no quarto, me preparo, pinto as unhas, passo um batom, ajusto a peruca. Olho no espelho e vejo uma mulher que existe apenas para mim e para o mundo online. Nesse instante, sinto-me inteira de uma forma que meu dia a dia nunca permite. É uma sensação que mistura prazer, curiosidade e até alívio.

O contraste, porém, é cruel. Porque quando o dia termina e a tela é desligada, o corpo que retorna para a realidade é novamente aquele homem sério, confiável, seguro. O homem feminino que habita o universo online se recolhe, silencioso, esperando a próxima oportunidade de existir. Isso cria uma sensação de dupla existência, que pode ser fascinante, mas também exaustiva.

A convivência com esses dois mundos exige disciplina emocional e mental. Eu aprendi a separar espaços físicos e virtuais, horários, rotinas. Mas a mente tem uma elasticidade própria, e nem sempre obedece. Há dias em que misturo sentimentos: sinto saudade da liberdade do online enquanto estou no trabalho. Desejo a seriedade do offline enquanto estou maquiado diante do espelho.

No final, percebo que essa vida dupla não é apenas sobre roupas ou aparência. É sobre identidade, sobre liberdade de expressão, sobre o direito de existir em suas múltiplas formas. É sobre aprender a equilibrar o que o mundo espera de mim com o que meu corpo e mente desejam explorar.

E talvez seja exatamente esse equilíbrio, entre a engenharia das rodovias e a engenharia das imagens, entre a masculinidade social e a feminilidade secreta, que define quem eu realmente sou.

Porque, no fundo, ser homem e crossdresser não são mundos separados. São camadas de uma mesma vida, que coabitam, se tensionam, mas também me tornam inteiro.

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1 Comentário(s)
Comentário(s)

Um comentário:

Anônimo disse...

Sei bem como é, hoje não via a hora de chegar em casa e pintar minhas unhas. Minha esposa escolheu a cor do esmalte, vermelho rubi da risque. Como não posso aparecer na minha realidade com as unhas das mãos pintadas, fiz as unhas do pé, tenho mantido feitas e vou na pedicure.
Por sinal adorei suas fotos, seus look, sua maquiagem e unhas, o batom da segunda foto amei a cor, tudo de muito bom gosto.
Acredito que se um dia eu me separar da minha esposa explorarei mais ainda meu lado feminino.