quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Guevedoces, transexuais biológicos ou crianças andróginas?

Quando pesquisei sobre a história dos transgêneros nas tribos norte-americanas achei muito interessante o fato de algumas culturas tratar as crianças apenas como criança, sem diferenciar as atividades em função do sexo biológico delas e as ensinando desde corte e costura até a caça, assim no ritual de passagem para a vida adulta cada indivíduo estaria apto a decidir por conta própria qual caminho deve seguir.

Recentemente eu tive conhecimento de uma variação genética que faz com que pessoas do sexo masculino desenvolvam o seu aparelho reprodutor somente na puberdade, junto com as características sexuais secundárias, dificultando a percepção do sexo biológico e transformando as crianças em indivíduos andróginos. Essas crianças ficaram conhecidas como guevedoces e foram objeto de estudo na década de 1970.
O nome guevedoces vem da vila de Salinas na Republica Dominicana onde foi observada essa condição em aproximadamente 2% dos indivíduos e, por tradução livre, significa "pênis aos 12 anos". Também foram encontradas pessoas com essa variação em locais como Turquia e Nova Guiné, mas a Republica Dominicana ficou mais famosa por conta dos estudos realizados pela endocrinologista Dra. Julianne Imperato que culminaram no desenvolvimento do famoso remédio Finasterida.

Num artigo publicado na revista American Journal of Medicine em 1977 ela explica que a condição dos guevedoces se deve à deficiência da enzima 5-alfarredutase que normalmente converte a testosterona em dihidrotestosterona. Como consequência os testículos, que são formados dentro da cavidade abdominal do embrião, não migram para o saco escrotal pelo canal inguinal (aquele do tucking) até a chegada da bomba de hormônios da adolescência.
Se a cultura local fosse semelhante à das tribos que comentei, não haveriam grandes dificuldades no desenvolvimento dessas crianças. Entretanto, como não é o caso, normalmente elas são tratadas como meninas até o momento que o pênis resolve dar as caras e aí surgem os problemas. O que sente uma pessoa que é tratada a vida toda como mulher ao descobrir que seu o corpo na verdade é de homem? O que fazer com uma filha que desenvolve um pênis aos 12 anos e começa a ganhar massa muscular e pelos?

O depoimento dado por Johnny, que foi registrado como Felicita, ao documentário Countdown to Life da BBC deixa explícito essas peculiaridades. Primeiro, sobre o desenvolvimento, ele comenta: "nunca gostei de me vestir de menina e quando me davam brinquedos de menina eu nem brincava. Quando via um grupo de meninos, ia jogar bola com eles". E quando ficou claro que ele era do sexo (e gênero) masculino veio o preconceito: "eles diziam que eu era o diabo, coisas ruins, palavrões, e eu não tive escolha a não ser brigar com eles, porque eles estavam passando da linha".

Por sinal não há regra no gênero adotado por cada guevedoce, enquanto alguns optam por assumir o corpo masculino outros preferem seguir a vida feminina e até realizam a cirurgia de redesignação genital. Quanto à sexualidade foi observado que a maioria tinha preferência por mulheres, mas, pra variar, também não é regra.

Na minha opinião os guevedoces e os intersexo são exemplos naturais e biológicos da variabilidade que existe no ser humano. Não podemos nos prender ao padrões binários de gênero, vulgo macho e fêmea, pois a própria natureza nos presenteia com diversos exemplos que fogem dessa "regra". Pelo que tudo indica, a maioria dos indivíduos ainda irá se encaixar nessas caixinhas binárias, mas não tem nenhum problema em ser diferente ♥ ♥
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