quarta-feira, 19 de abril de 2023

Esse homem se parece com uma mulher

Fig. 1 O Jovem Cristo

Traduzido de The Ontological Machine

Durante o ano passado, olhei para esta imagem inúmeras vezes. A primeira vez que a vi eu estava em uma palestra tediosa, daquelas que o palestrante fica passando slides de PowerPoint – apresentações depois do almoço nunca foram a minha praia. Se sabe, quando alguém não sabe direito sobre um determinado tópico de arte, tudo começa a se fundir na mesma coisa (depois de uma certa quantidade de querubins e mulheres nuas, eles parecem todos iguais). Mas quando você aprende a olhar, tudo começa a fazer sentido. De repente, as curvas daquelas mulheres nuas dizem algo sobre o pintor, e o uso de um determinado pincel nos querubins ajuda a distinguir o período. Depois disso, qualquer apresentação de slides se torna mais divertida e leve, como uma versão artística de Onde está Wally. Você deve supor que eu gasto meu tempo de maneiras muito estranhas, e você está certo.

E eu devia estar no limite do conhecimento, porque enquanto o palestrante passava rapidamente pelas imagens, uma delas imediatamente me tirou o sono. Essa figura de olhos amendoados e cabelos cacheados perfeitamente articulados parecia estar olhando para um interlocutor invisível como se estivesse no meio de uma conversa. Algo sobre esta imagem estava me deslumbrando. Talvez fosse o uso da luz, ou talvez sua proximidade, como se eu vivesse uma intimidade da qual não pudesse escapar. Isso me fez sentir algo que nunca pensei ser possível enquanto assistia à arte renascentista: me deixou desconfortável.

Não demorou muito até eu perceber que a imagem não era de uma mulher núbil olhando para longe com modéstia. O retrato era de um menino. E aquele menino era Jesus Cristo. Apenas um GIF poderia transmitir minha surpresa naquele momento, e eu tive um milhão de perguntas imediatamente. Por que essa imagem é tão perturbadora para mim? Por que ele parece uma mulher? Quem pintou isso? Eles queriam que ele parecesse com uma mulher? Onde a pintura seria apresentada?

Para mim, são um milhão de perguntas que podem ser reduzidas a uma: À primeira vista, esta foto é de um jovem homem ou mulher. Tudo está no lugar certo. Dois olhos, um nariz e mechas tão brilhantes e definidas que parece que foi usado um frasco inteiro de gel para preparar para fazer a pintura. No entanto, senti que algo na pintura estava muito errado. Suspeitei que esse sentimento fosse mais do que um pensamento fugaz, então, pela primeira vez na vida, pesquisei uma obra de arte tentando fazer a engenharia reversa de um sentimento, em vez de um pensamento.


A juventude andrógina

A imagem (Fig. 1) é O Jovem Cristo de Marco d'Oggiono datada de 1490. Fiquei muito satisfeito ao saber que se encontra no Museo Lázaro Galdiano em Madrid na Espanha. Nem sempre sou o promotor mais vocal da minha pátria, mas pequenas coisas como essas me deixam feliz.

Em primeiro lugar, pelo artista. Eu não tinha o conhecimento de como pesquisar a super obscura Arte Renascentista e fiquei feliz em saber que, embora o pintor não fosse muito conhecido, tanto ele quanto a imagem estavam ligados a Leonardo da Vinci. Isso facilitou as coisas, sempre há muita literatura sobre Leonardo e companhia.

O Jovem Cristo data o período em que Leonardo estabeleceu-se em Milão e lá trabalhou por vários anos. Como faria qualquer bom mestre renascentista, Leonardo tinha alunos, e os alunos que trabalhavam com ele em Milão foram chamados de Leonardeschi. Marco d'Oggiono, o criador desta imagem em particular, foi um deles. Ele não era um garoto de 12 anos de cara limpa na época, ele já era um mestre certificado, provavelmente ganhando mais treinamento de Leonardo em troca de sua contribuição para obras maiores.

Também aprendi que homens jovens e andróginos eram uma especialidade do Leonardeschi. Percorri algumas das outras pinturas e também algumas de Leonardo, para encontrar essas outras imagens.

Fig. 2 Retrato de Girolamo Casio

A começar pelo Retrato de Girolamo Casio (Fig. 2), de outro aluno de Leonardo. Também tem o toque andrógino de um homem que se parece muito com uma mulher. O retrato idealizado de Girolamo Casio parece evocar a modéstia e a doçura próprias de uma donzela de certo status social.

Fig. 3. São João Batista

Já as duas pinturas seguintes são do próprio Leonardo da Vinci, primeiro o famoso São João Batista, (Fig. 3) em que São João se parece muito com uma mulher. Ele tem os braços arredondados e aquela suavidade associada na época a representações do corpo de uma mulher, além disso, parece estar cobrindo os seios. Ele tem cabelos longos e sedutores além de uma expressão sedutora voltada para o espectador.


Fig. 4. Ângelo Incarnato

A segunda imagem também nos confunde porque é um rascunho, também de Leonardo, muito parecido com São João Batista, mas nesta, o corpo tem um pênis e seios femininos protuberantes. Sim, olhe novamente com atenção. Isso é um pênis. Vai entender.

Experimentar os limites do corpo masculino/feminino era o território do Leonardeschi, e eles faziam isso muito bem. O São João Batista de Leonardo é um homem que parece uma mulher, uma mulher muito sexualizada. O Jovem Cristo, por outro lado, é um homem que se parece com uma mulher de uma forma muito sutil, atraente, misteriosa e sedutora. E para o inferno com a opinião de Kenneth Clark de que o Leonardeschi, e Marco d'Oggiono em particular, tem um estilo "peculiarmente revoltante".

Existem muitas teorias sobre por que a androginia era uma tendência entre o  Leonardeschi. Reconhecidamente, a preferência por homens jovens era visível não apenas na arte, mas também nas práticas sexuais da Itália renascentista.

Vale salientar que a homossexualidade masculina era bastante comum durante o período do Renascimento. Essas uniões eram geralmente compostas por um rapaz mais novo e um homem mais velho, assumindo este último o papel de ativo durante o ato sexual. O homem mais velho nessa relação é visto como viril, enquanto o rapaz mais jovem é visto como feminino. Isso é compreensível porque o corpo adolescente ainda não desenvolveu as características associadas à masculinidade, como a musculatura definida ou a barba. Portanto, não era uma associação incomum vincular homens jovens ao desejo sexual, daí o nome de São João Batista.


O Estranho: Representando Deus

No entanto, O Jovem Cristo não é nada sexual. Ainda se encaixa em outra das características de Leonardo e seu círculo, que é o retrato idealizado de jovens. Nos retratos idealizados, o artista se desvia da aparência real do retratado para reforçar certas características.

As características em  O Jovem Cristo parecem ser bastante realistas e, ainda assim, a impressão que tenho da imagem é perturbadora em geral. O cuidado minucioso com os cabelos, a pele branca perfeita e impecável e até a simetria da pintura – digna de um filme de Wes Anderson – a tornam perfeita demais para ser real. Os detalhes cuidadosamente executados também contrastam com a ideia de franqueza dada pelas ações de Cristo. Mesmo quando deveria estar conversando, ele parece estranhamente imóvel. Toda vez que penso nessa imagem, ela me lembra o conceito de O Inquietante proposto por Freud.

O Inquietante é uma sensação de desconhecido. Freud conta uma história em que caminhava pelas ruas desertas de uma cidade provinciana da Itália que lhe era estranha. Ele acabou por engano no distrito da prostituição e, mesmo que Freud fizesse carreira escrevendo sobre o desejo sexual, ele se apressou em deixar a rua estreita na próxima curva. Mas depois de vagar por um tempo, ele continuava terminando na mesma rua. A rua não lhe era familiar, mas cada vez que, em sua peregrinação sem rumo, acabava no mesmo bairro, uma sensação de estranheza o dominava. Era a falta de familiaridade de uma rua que estava se tornando muito familiar para ele.

Esse sentimento de estranheza também está presente em O Jovem Cristo. Supõe-se que seja familiar, a foto de um jovem, e ainda assim, há algo profundamente estranho e desconhecido naquela imagem. Cristo, neste cenário, é retratado como um adolescente, o que é uma representação incomum. A maioria das imagens de Cristo é na idade adulta ou na infância, mas não há muitas nessa idade jovial. Assim, a imagem não é explicitamente sexual e não funciona da mesma forma que outros retratos do Leonardeschi, mas tem aquela qualidade diferente do estranho e do desconhecido. O que é essa imagem então?

Na minha opinião, d'Oggiono leva o retrato em uma direção completamente diferente do resto de seu círculo. Verdade seja dita, a pintura ainda participa da qualidade andrógina que era tão popular entre o Leonardeschi, mas o que eu acho fascinante nesta imagem é a forma de representar a divindade.

A artista usa o retrato idealizado como forma de transmitir feições divinas. Em vez de lançar uma luz brilhante sobre a figura, ele escolhe representar a figura de maneira peculiar. Vemos aqui um jovem. Sua aparência humana, suas feições parecem familiares, tudo parece estar no lugar certo. No entanto, algo está errado. Algo não está certo. Será que ele não é, de fato, como qualquer outro homem? Essa qualidade estranha da pintura, conforme descrita por Freud, aponta intencionalmente para o fato de que não estamos vendo aqui um leigo qualquer, mas o filho de Deus.

No entanto, ao mesmo tempo, é uma figura pautável. Um jovem Cristo, com um pouco menos da seriedade metafísica que tem na idade adulta. Até mesmo vulnerável. Lindo. Delicado. Macio. Colocada nos aposentos de uma nobre, esta piedosa imagem serviria para auxiliar na oração e provavelmente se tornaria um objeto querido para devoção privada. A sensação de intimidade com a imagem também é reforçada por seu tamanho reduzido e fundo escuro. E, como resultado, temos um Jovem Cristo que nos aproxima ao mesmo tempo em que nos escapa. Somos atraídos pelo menino vulnerável e terno apenas para perceber sua natureza divina e estranha. Nada menos que uma fronteira entre o divino e o humano. E as pessoas ainda acham que só os Grandes Mestres que importam.

REFERÊNCIAS
- Brown, Alan ‘Leonardo and the Idealized portrait in Milan’, Arte Lombarda, 67 (1983) pp.102-116
- Brown, Judith C. and Davis, Robert C. (eds.) Gender and Society in Renaissance Italy (New York: Addison Wesley Longman, 1998)
- Clark, Kenneth. Leonardo da Vinci: an account of his development as an artist. (Harmondsworth: Penguin, 1959) p. 51, 117. Kenneth hatin’ on the Leonardesque - Corry, Maya. “An Ideal Man”. Apollo, Jun 2014, Vol.179(621), pp. 78-83
- Freud, Sigmund O Inquietante, Obras Completas de Sigmund Freud (Imago Editora, 1996)
- Mason, Mary Willan. “Leonardo Da Vinci: painter at the court of Milan”. (Cover Story) Catholic Insight, May 2012, Vol. 20(5), p.9(2)

1 Comentário(s)
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Um comentário:

tammilee.tillison@gmaii.com disse...

Será que existe alguma religião importante, não meras seitas, que aceite livremente o crossdresser como membro atuante?