quarta-feira, 30 de março de 2022

A psicologia do crossdressing

Traduzido de The School of Life 

O que é crossdressing e por que fazemos isso?

O crossdressing, e aqui nos referimos particularmente a homens que se vestem de mulher, tende a ter uma má reputação. A ideia de um homem que se entusiasma em vestir uma meia calça tem sido tradicionalmente vista como risível, lamentável – e simplesmente sinistra. Em geral, supõe-se que um casamento facilmente chegaria ao fim no dia em que a esposa encontrasse o marido de calcinha; e que um gerente perderia toda a autoridade se seus colegas soubessem de seu fascínio por maquiagens como rímel e batom. A partir dessa perspectiva, o crossdressing parece uma admissão de fracasso. Em vez de viver de acordo com um ideal de força, robustez e pura "normalidade", um homem que gosta de usar um vestido é considerado um desviante de um tipo particularmente alarmante.

Porém, na verdade, o travestismo se baseia em um desejo altamente lógico e universal: o desejo de ser, por um tempo, o gênero que se admira, se excita e, talvez, se ame. Vestir-se como uma mulher é apenas uma maneira dramática, mas essencialmente razoável, de se aproximar das experiências do sexo sobre o qual se está profundamente curioso – e ainda assim foi (um pouco arbitrariamente) impedido. Conhecemos bem o crossdressing em outras áreas da vida e nem nos damos conta disso. Um menino de cinco anos que vive em um subúrbio de Copenhague e que desenvolve um interesse pelo estilo de vida dos vaqueiros das planícies do Arizona seria encorajado a vestir um chapéu, jeans e colete e apontar sua pistola para um chefe índio imaginário – para aplacar seu desejo de se aproximar um pouco mais do assunto de seu fascínio.

Devemos aceitar que o crossdresser adulto não é tão diferente. Ele também quer habitar as experiências de um grupo de pessoas que ele admira. Ele procura saber como seria cruzar as pernas em um vestido justo de festa, caminhar sobre um piso de mármore usando um salto alto, sentir a alça de um sutiã de algodão cinza envolvendo suas costas, colocar uma pequena pulseira de prata em volta de seu pulso, sentir a brisa em seus braços depilados e despidos e acariciar suas pernas longas e lisas durante o banho. Ele pode até ir além e imaginar como seria beijar um homem como se fosse uma mulher, sentir os pelos que normalmente são os dele nos lábios tão macios quanto os das amantes que ele mesmo conheceu. Admirando-se no espelho em meias 7/8, o crossdresser experimenta a intensa e fascinante satisfação de ser ao mesmo tempo ele mesmo junto com o seu objeto de desejo.

Crossdressers sonhadores

Embora possa parecer peculiar, em todos os aspectos, o crossdresser é guiado apenas pelo tipo de questões que admiramos muito só que de outras formas, como na escrita (e na leitura) de ficção. O que emociona no romance Anna Karenina é a intensidade com que o escritor russo Liev Tolstói conseguiu imaginar as experiências de uma glamorosa mulher casada que se apaixona por um belo oficial do exército. Para escrever Mansfield Park, Jane Austen teve que aprender a se vestir não apenas com os vestidos cinzas e simples de uma pobre colegial de dezesseis anos (sua heroína Fanny Price), mas também as jaquetas de um membro arrogante da aristocracia de meia-idade (Sir Thomas Bertram) e o colete preto de um pretenso clérigo sensível (Edmund Bertram). Reza a lenda que o careca e bigodudo Gustave Flaubert comentou com a sua namorada, Louise Colet, que a sua personagem heroína Emma Bovary havia se tornado para ele mais do que uma simples personagem que ele descrevia como um observador desapaixonado de uma paisagem fictícia: sua identificação com a moça era tão plena que ele sentia que tinha que se tornar ela, literalmente. Era compreensível, portanto, que ele tivesse acrescentado à Louise que tinha acabado de se masturbar com a ideia de ser a Emma deitada de costas com os braços acima da cabeça, em uma cama de um pequeno hotel em Rouen, sendo fortemente penetrada pelo fazendeiro local Rodolphe.

Gustave Flaubert e a personagem Emma Bovary

O travestismo é uma maneira de explorar nosso direito inato de cidadania universal: é o protesto mais dramático contra sermos barrados pelo limite imaginário da província do gênero em que nascemos. O crossdressing encena o grande princípio filosófico expresso pelo dramaturgo romano Terêncio: Homo sum, humani nihil a me alienum puto: eu sou humano, nada humano é estranho para mim (incluindo minissaias ou faixas de cabelo).

A libertação do crossdressing

É claro que pode ser um pouco impactante para terceiros perceber que você não está tão firmemente ancorada ao gênero em que nasceu. Pode ser desconcertante ter que aceitar que, no fundo, na mente semiconsciente, sempre será algo muito mais diverso, multifacetado, mas também talvez até mais interessante do que um mero "homem" ou uma mera "mulher". 

Não devemos ter medo. Em vários campos importantes da vida, podemos aceitar que nossa identidade e status originais não devem ser considerados decisivos; e conhecer o valor de estender nossas simpatias através da arte, das viagens e da imaginação. Quem se traveste não faz nada além de praticar alguns movimentos básicos de empatia com os quais nós já nos sentimos muito à vontade em muitas áreas. Embora ainda não o tenhamos reconhecido completamente, travestir-se é uma coisa muito normal de se fazer.

4 Comentário(s)
Comentário(s)

4 comentários:

-- disse...

Amei esse texto. Parabéns pela postagem.

Unknown disse...

Obrigado

Unknown disse...

Muito bom!

Anônimo disse...

Não conheço um crossdresser que tenha sido facilmente aceito quando assumido e/ou descoberto. Seja na vida adulta, ou ainda quando criança que não soube esconder direito aquela calcinha, ou qualquer outra peça feminina que tenha te chamado a atenção.
Vou pular o argumento daquela criação que devemos ser “homens fortes”, e toda aquela situação de não demonstrar sentimentos.
Bem, eu fui criado pela minha madrasta (infelizmente minha mãe morreu quando eu tinha 3 meses), e quando uma figura feminina veio morar com a gente quando eu tinha uns 6 anos. Aquilo me chamou atenção.
Era tudo tão novo, e as roupas dela (claro) me despertaram um sentimento diferente. Foi quando usei calcinha pela primeira vez.
Mais velho (14 anos), eu quis algo diferente e fui procurar na gaveta de calcinhas dela, foi quando eu segurei um body rosa com ligas próprias e um par de meia 7/8, tudo rosa. Eu tive que provar, e eu me lembro da sensação, e tbm do medo pois foi quando fui descoberto. Minha madrasta me viu usando seu body e meia bem apertadinhos e para minha surpresa, ela riu da situação e conversou comigo como uma amiga, ali ela se tornou algum porto seguro pra mim. Ela me disse “já que vc gostou, é seu”, sim ela me deu aquela lingerie linda, mas ao mesmo tempo me orientou a esconder pois ninguém me aceitaria como ela aceitou, principalmente meu pai. Não que ela encorajasse meus desejos, mas não reprimia. Certa vez, fomos pra uma chácara de uma amiga dela e meu pai não pode ir. E ao chegar lá, ela me falou pra eu ser quem eu quiser e que ali não haveria julgamentos, essa amiga dela tinha duas filhas da minha idade e eu um garoto tímido que estava admirando aquelas duas figuras tomando banho de sol uma de biquíni e outra de maiô. Foi quando para minha surpresa, essa amiga da minha madrasta me chamou para dentro de casa, me levou para o quarto dela e me deixou separado um maiô de suas filhas pra eu usar. Ali foi um raro momento que eu pude ser eu mesmo.
Com o tempo, eu contei meus desejos por lingerie para algumas namoradas, umas abominaram e outras “aceitavam” acreditando que eu era bissexual ou um gay enrustido. Nenhuma namorada minha quis entender de fato, e mesmo que não participe dos meus desejos, eu queria apenas ter o meu espaço para usar o que eu quiser. Minha única amiga que entende minha vontade é a minha madrasta.
Afinal, pq eu tenho prazer em usar lingerie?

Gente, eu precisava contar para alguém