quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Machismo e decepções

"Você aí, homem, alguma vez já teve cerceada a sua liberdade de agir? aparentemente, não, não é? Mas teve sim. O machismo é delimitador não apenas para mulheres. Por mais que você seja branco, heterossexual e rico (o grupo mais privilegiado da nossa sociedade), o machismo atinge você também. Porque embora ele coloque a mulher em posição de submissão e o homem, de dominação (e que fique claro: não há comparação possível em relação às desvantagens do machismo para as mulheres) ele também interfere no comportamento masculino. Ou você nunca ouviu a expressão "homem que é homem ____________" (complete com qualquer idiotice aqui)? Homem que é homem não chora, homem que é homem faz tarefas domésticas, homem que é homem não leva desaforo para casa, homem que é homem não sente, homem que é homem provavelmente também não pensa e jamais questiona.

A lavagem cerebral que forma os machinhos de plantão começa ainda na infância: mesmo antes de nascer, o quarto da criança pode ser de qualquer cor, menos rosa. Porque homem não veste rosa. Nem a parede do quarto de um menino veste rosa. Digamos que esse menino agora tenha uns dois anos. Ele brinca, cai, se machuca e chora. A primeira reação do pai (e muitas vezes da mãe também) é incutir na cabeça da criança:  "homem não chora". E quando essa criança estiver socializando com outras, certamente virá o "homem não brinca de boneca" ou ainda "homem não brinca com menina". E qualquer comportamento no sentido oposto é caracterizado como "coisa de mulherzinha". A nossa sociedade é tão misógina que "ser homem" é uma grande qualidade e "ser mulherzinha" é um defeito." Ativismo de Sofá

Me deparei lendo e relendo esse texto diversas vezes e faz tempo que venho pensando em como escrever algo sobre esse assunto para vocês. Estou bem chateada com algumas coisas e o ultimo post me fez lembrar de uma decepção da minha vida causada principalmente pelo machismo.

Victor com 16 aninhos
Quando eu tinha 16 anos a minha mãe me convenceu a fazer um curso de Manequim e Modelo e essas fotos acima são do book fotográfico. Lembro que tivemos aula de etiqueta, passarela, fotografia e até de maquiagem, foi onde eu tive o meu primeiro contato com elas. Alias, a Samantha já existia e foi uma época bem ativa dela.

Durante o curso eu fiz uma boa amizade com uma moça de 17 anos e muitos dos nossos assuntos eram de menina, digamos assim. Até tinham outros rapazes na turma, porém o meu interesse maior era outro logo foi mais fácil fazer amizades com as meninas... Imagina como seria para um rapaz que tem a Samantha dentro dele em um ambiente onde muitos dos assuntos envolvem saltos, roupas e maquiagem??

De certa forma foi uma maravilha ter esse contato e hoje eu me sinto segura em compartilhar algumas dicas aqui no blog, entretanto eu estive reparando nas outras fotos do book e na maioria delas eu estou com essa cara fechada como a da foto da direita. Não por menos, do outro lado tinham algumas moças participando do mesmo ensaio em belos trajes e eu gostaria de estar no lugar de uma delas, de vestido não de jeans.

Mas por que você não aproveitou a oportunidade e apresentou a Samantha para o mundo?

Bom, aí que entra o machismo. Na casa dos meus pais o machismo imperava. Lembro uma vez, nessa mesma época, que cheguei em casa com um par de brincos (que a minha namorada me incentivou a colocar) e assim que o meu pai viu eu logo fui intimado a retirar eles por que isso era proibido dentro da casa de um machista. E esse piercing? Sabe-se lá como eu pude, mas quase precisou de um pedido formal por escrito e, convenhamos, é um acessório não muito delicado.

Outro exemplo é o comprimento do cabelo. Desde a minha infância eu sentia vontade, ou necessidade, de deixar os cabelos crescerem, no entanto sempre chegava uma hora que eu era obrigado a cortá-los para voltar a ficar com "cara de hominho". Logo eu, que hoje sou careca.

Então como eu poderia cogitar falar a respeito da Samantha num ambiente desses?

Esses detalhes me incentivaram a sair de casa o quanto antes e meu sonho era externalizar a Samantha assim que saísse, mas isso tinha um custo que eu não poderia bancar morando sozinha, então me dediquei aos estudos e ao trabalho. No fim, nem terminei o curso de Manequim e Modelo e me afastei completamente desse meio.

Se passaram 13 anos e, enquanto eu admirava as modelos transgênero do outro post, eu fiquei me perguntando "e se...?". Hoje eu tenho um bom padrão de vida, mas dedico boa parte do meu tempo num ambiente frustrante (machista e conservador), então acho que o certo seria eu me perguntar "será que é tarde??"

Samantha modelando por aí =D
Antes de acabar vou transcrever outro parágrafo do texto do blog Ativismo de Sofá que fala sobre o feminismo de um jeito bem objetivo:

"Homens botam sua masculinidade num pedestal tão alto que passam a vida toda tentando alcançar. Rapazes, fica a dica: esqueçam a masculinidade, sejam apenas homens. Se homens abrissem mão dos privilégios que o machismo oferece, veriam que o feminismo traz a vantagem da liberdade. No feminismo, todos os gêneros tem a liberdade de agir sobre as suas próprias vidas. Assim como o feminismo não afirma que a mulher que é mãe, que trabalha em casa, que cozinha é menos mulher (ou mais mulher), ele também afirma que homens não são menos homens (ou mais homens) por chorar, brincar de boneca, usar rosa, cumprimentar amigos com beijos, ser amigo de mulheres, não entender de futebol, não gostar de cerveja, não saber dirigir, não trabalhar fora de casa, cuidar dos filhos, varrer a casa, enfim, por viver." Ativismo de Sofá
3 Comentário(s)
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3 comentários:

Sarah Helen Crossdresser disse...

Eu sei lá, mas para mim não faz sentido chamar isso de machismo, mas sim de sexismo.
Para mim, machismo é a ideia de superioridade do macho sobre a fêmea (que existe e é terrível), mas mesmo que ele acabasse como num passe de mágica, não creio que o sexismo acabaria. Mesmo se a nossa sociedade entendesse a mulher como superior, o problema persistiria.
Para mim, a pessoa que te impede de (ou te constrange por) usar acessórios "femininos", não necessariamente faz isso por achar a mulher inferior (ou o homem), mas por achar que homem é assim e mulher de outra forma. Em outras palavras, acredito que sexismo é imposição de comportamento ou restrição de liberdades individuais baseada em gênero. Isso tem relação com machismo, claro, mas acho que chamar de machismo mais confunde do que ajuda.

Samantha Oliver disse...

Sarah, em momento algum eu falei que feminismo coloca a mulher como superior, até fiz questão de colocar o paragrafo que diz que "No feminismo, todos os gêneros tem a liberdade de agir sobre as suas próprias vidas". Machismo não deixa de ser sexismo, mas que a nossa sociedade tende descaradamente para o machismo isso é fato.

Anônimo disse...

Querida Samantha, estou amando seu blog. Sempre com matérias muito interessantes. Continue assim! Beijocas de uma grande amiga virtual.